O mercado fechou na última sexta-feira em 147,45 centavos base Setembro, ante o fechamento de sexta-feira retrasada em 157,80 centavos. Não segurou o nível de 160, e nem o de 150 centavos.
Tecnicamente o mercado pode parecer sobrevendido, e alguma correção pode ocorrer, porém na verdade, se olharmos a posição net vendida dos fundos, eles ainda têm bastante espaço para aumentar as vendas.
Do outro lado você tem a mescla de hedges de venda, principalmente de Brasil com a safra e as indústrias que tendo paciência acertaram, pois o mercado nominalmente caiu, os diferenciais não alargaram (ao contrário) e a estrutura continua praticamente sem carrego. Então, qual a pressa de compra (sem contar com a pressão dos juros)??
O Brasil embarcou bem em Julho, o número de Agosto provavelmente vai ser bom também. Quanto aos certificados… ok… eles vêm caindo a níveis históricos bem baixos, porém a leitura pode também ser, olhando os diferenciais, estes cafés certificados são relativamente baratos… a bastante tempo… porque não caem mais rápido???
Do ponto de vista dos fundamentos o que pode levar este mercado a voltar a subir??
● Um problema na safra Brasil mostrando forte queda dos embarques de setembro em diante;
● Um problema na florada Brasil ou na sequência, no “pegamento”, devido a falta de chuvas, o mesmo caso no Vietnam devido a falta ou excesso de chuva… Enfim, é novamente apostar no imponderável.
Pode acontecer? Claro, porém o que o produtor está fazendo para se proteger, caso este mercado derreta para 120 centavos? ou deixar uma posição montada para se aproveitar no caso de uma reversão…
Ficar torcendo pelo imponderável e não fazer a lição de casa, a história prova, é sempre a pior opção.
Do ponto de vista do macro haverá alivio? a tendência de médio prazo não é boa. O dólar voltando para perto dos $5 reais não ajudou o mercado na última semana. Tecnicamente estava sobrevendido, e poderíamos encarar apenas como um ajuste, e logo retomaríamos a valorização do Real. Porém, nos relatórios passados temos conversado que, apostar contra o dólar pode não ser a melhor estratégia, e que não depende apenas da conjuntura interna nossa.
Os problemas na China continuam aflorando:
● Uma grande dificuldade do governo em reagir com os estímulos corretos;
● Uma bolha imobiliária muito séria (boa parte da poupança da população estava na valorização imobiliária), que está levando a uma queda no consumo (deflação);
● Indústrias voltando a Europa e USA;
● Queda forte no número de turistas visitando a China;
● Alto desemprego na população jovem (governo vai parar de divulgar os dados, com certeza… isto vai resolver o problema).
E com o risco que há com todo governo ditatorial, a melhor forma de divergir a atenção dos problemas, é começar uma guerra.
Mesmo sem esse feito, a tendência é de uma certa “estabilidade“ nas exportações brasileiras para lá, e a consequente balança cambial não ser tão pujante quanto se esperava.
Do outro lado do Pacifico, apesar de sinais do arrefecimento da inflação, os títulos de 10 anos não estão cedendo, o que mostra que o mercado continua preocupado com a inflação e há possibilidade de novos ajustes por parte do FED. Isto também mostra a preocupação com a dívida americana, e o empenho do FED em captar recursos. Seja por um motivo ou pelo outro, o risco do spread de juros começar a não ficar atrativo para a entrada de dólares no Brasil hoje, começa a ficar maior.
O risco global sobe… o porto seguro não é aqui… mantido o mesmo spread.
Internamente, apesar de muitos economistas mais “progressistas“ continuarem com uma visão mais otimista para o dólar, continuo achando que pouco tem haver com a política interna. No fundo, o mercado sabe que este é um governo relativamente fraco, que os momentos de guerra e paz com o legislativo vão ser normais (entre distribuição de cargos e emendas), e que a conta na verdade não fecha. Se fosse só isto, o risco de continuar aplicando aqui continuaria valendo a pena, até o spread de juros não se tornar atrativo (uma simples conta matemática).
Para resumir, olhando a foto, a coisa não está boa. Olhando todo o cenário, só contando com o imponderável mesmo. Ficar parado olhando a telinha não vai resolver.
Segundo a RR Consultoria, a safra Brasil pode estar chegando aos 85% colhida. “As poucas chuvas fazem atrasar o término da colheita, mas acelera a formação da florada e, nesse momento, o benefício é maior que o transtorno”, afirmou Fernando Diniz, consultor do grupo RR Consultoria.
Boa semana a todos e boa sorte aos Ucranianos!
*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.