Essa semana o preço do café flutuou pouco e fechou no mesmo preço que começou, tanto no Arábica quanto no Robusta, nada de novo.
Alguma oscilação mais forte na sexta-feira fez alguns negócios saírem, mas nada que altere o cenário do momento.
O Dólar também a mesma coisa, apesar de ter esboçado uma reação na sexta-feira, fechou muito próximo do valor do início da semana, por volta de R$ 5,21.
Índice CEPEA mostrou negociação no Arábica entre R$ 1.861,69 a R$ 1.901,38, e no Robusta entre R$ 1.063,50 a R$ 1.092,10.

Tive bastante conversas com indústrias brasileiras essa semana e é nítido a situação confortável que a indústria brasileira está, com oferta abundante do consumo do Arábica e de Robusta, estão podendo se dar o luxo de escolher quanto comprar, por quanto comprar e onde comprar, sem nenhuma dificuldade.
Esse conforto interno contrasta com o mercado externo, com os preços de exportação elevados e diferenciais caros, parte do café brasileiro da safra 2025 acaba ficando no mercado interno.

Os números ajudam a explicar isso: Segundo a Cecafé, em janeiro o Brasil exportou 2,78 milhões de sacas, bem abaixo da média histórica do período entre 2020 e 2025, que gira em torno de 3,57 milhões de sacas, uma queda de aproximadamente 22%.

Estamos diante de falta de café ou falta de interesse comercial?

O exportador de café no Brasil utiliza o diferencial para calcular o preço da compra e da venda do café. O valor nominal da saca de 60kg na verdade pouco importa para o exportador, exceto pelo fluxo financeiro que isso gera, obviamente que quanto mais alto a saca custar mais dinheiro tem que pôr na operação.
Mas o resultado líquido, lucro ou prejuízo, não depende do valor da saca e sim do diferencial da operação. (já fiz algumas lives explicando como isso funciona)

No gráfico abaixo você consegue ver a distorção do diferencial de acordo com o fluxo do mercado, o diferencial reage de acordo com o cenário do momento. O exportador que hoje aplica uma boa venda em diferencial com preço a fixar no futuro pode se ver em maus lençóis em pouco tempo ao ter que comprar bica corrida com diferencial caro.

Hoje para você comprar um café colocar no estoque e calcular o risco para manter uma operação deve-se levar em conta que a liquidez para cafés baixos (resíduo do arábica) e Robusta, estão baixas, com diferenciais bem baixos e as vezes até com dificuldade de saída. Além do Moka, que se tornou um produto difícil de alocar.
Com produtores segurando café, diferenciais FOB elevados, spreads invertidos e custo financeiro alto, não há incentivo para uma postura agressiva de compra no Brasil, o mercado interno está confortável demais para isso e com muita aversão a essa assimetria de risco.

Também abaixo mostramos do Robusta que está bem mais tranquilo e muito longe da média:

Apesar do diferencial para FOB estar totalmente distorcido, já estamos negociando safra nova muito longe dos problemas atuais, hoje um 17/18 para embarque imediato é negociado a +50 enquanto um safra nova é facilmente achado a -5 em diferencial.

Já fora dos países produtores, a situação é oposta, indústrias no exterior operam com estoques historicamente baixos, pouca margem para erro e dependência constante do fluxo de embarques. Qualquer recuo na Bolsa vira oportunidade para tomar posições.

É um comportamento reativo e nem tanto estratégico, os inventários estão extremamente baixos, sem segurança e sem capacidade absoluta de esperar a safra futura. Não compram porque quer, compram porque precisam, precisa pagar o preço que for necessário para garantir o fluxo.
Uma das fontes são os certificados, que está barato em relação ao físico, então vira fonte imediata de suprimento, mantendo o nível de cafés certificados baixos mesmo entrando pendentes para aprovação todo dia.
Mas resumindo, indústria lá fora nunca estiveram com estoques tão baixos, pouca flexibilidade e tão dependentes do mercado spot.

Eu diria que essa é a assimetria central do mercado hoje: conforto na origem, fragilidade no destino.

Safra 2026 aparentemente será gigante, tudo aponta para uma grande safra que deve regular o fluxo de café global construindo um superávit em alguns países, principalmente no Brasil.

Nas visitas realizadas a diversas fazendas da região da Alta Mogiana, tanto paulista quanto mineira, nos meses de janeiro e fevereiro de 2026, foi possível observar de perto o elevado potencial produtivo da região para a safra 2026.
As lavouras, em sua maioria, apresentam vigor expressivo, alta carga e excelente granação. Evidentemente, existem exceções, e que não comprometem nem reduzem o potencial produtivo da Alta Mogiana como um todo.
Considerando o conjunto das áreas visitadas, a percepção geral é de uma safra consistente, com produção grande, e em algumas lavouras superará números de 2020.
Diante desse potencial produtivo, somado ao volume remanescente da safra anterior ainda presente nos armazéns, é possível que haja restrições de espaço para armazenagem na região. Esse cenário dependerá diretamente do ritmo de comercialização e do escoamento do café para estruturas fora da Alta Mogiana, utilizadas por grandes exportadores.

Em resumo, o mercado hoje vive um contraste:
Internamente, conforto e seletividade.
Externamente, necessidade e reatividade.
O preço vai se movendo por percepção, fluxo e tempo. Estamos de olho.

Boa semana e bom carnaval, até domingo que vem!

Gustavo Matias
@matiascoffeetrading

Não é recomendação de compra ou venda
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