O mercado em NY fechou nesta última sexta-feira em em 164,85 centavos, contra um fechamento sexta-feira retrasada em 180,75 centavos, base Setembro. Minha teoria que a arbitragem contra Londres poderia segurar o mercado de NY, e que os fundos poderiam ser o melhor amigo dos produtores no curto prazo, foi pelo ralo.
Londres não ficou imune, fechou abaixo dos 2.700 Dólares/ton, porém a arbitragem está beirando os 40 centavos (onde já estava a 70). Quais as razões da derrocada?
Agora é fácil especular as razões, porém podemos enumerar alguns fatores, do porque o mercado quebrou:
- O mercado vinha operando em um canal bem comprimido em termos gerais entre 172 e 192 centavos. Várias tentativas de tentar quebrar a casa dos 190 cansou os longs (comprados), e uma leitura mais negativa do macro e dos fundamentos foi o que juntou a fome com a vontade de comer.
- O macro não ajudou na semana, com várias notícias de aversão ao risco:
● Entrevistas mais duras do FED americano, ditam que o ciclo de aumento de juros não acabou;
● Vários reports de bancos, de que a economia americana entrará em recessão;
● Temores com dados de uma forte queda de atividade econômica na zona do Euro;
● Apesar da aposta continuar, de que em Agosto o BC vai começar a cortar os juros, o último comunicado do BC foi bem duro. A aposta no spread de juros, bem como vitórias do governo no Congresso (arcabouço, Zanin) acabaram deixando o Real valorizado. Com a derrocada em NY, isto não ajudou nada os valores de café em Real dentro do Brasil; - No fundamento, os números do USDA no final da semana foi a pá de cal, projetando um superávit de cerca de 4 milhões de sacas neste ciclo 23/24.
Interessante que o USDA projeta um crescimento da demanda, elevando o consumo para 170 milhões de sacas. Se compararmos a outros números entre 175 e 177 milhões de sacas, um desvio aí, já é suficiente pra virar o número completamente. Por este motivo sempre comentamos que número de deficit ou superávit, para o cidadão sentar mesmo na posição e ter convicção de ir até o fim, tem que ser de mais ou menos 10 milhões (como foi na safra passada até o mês de Fevereiro de 22).
O relatório também indica que os estoques mundiais caíram para quase 30 milhões de sacas (um nível historicamente muito baixo), porém os custos de manter estoques também está o mais alto dos últimos 40 anos.
Interessante observarmos o quanto a indústria tomou de posição de hedge nesta semana. No relatório do dia 20, os fundos já haviam liquidado mais de 30% de sua posição líquida comprada, e basicamente houve pouca compra de indústria.
O número de contratos em aberto caiu. Vamos observar os dados desta semana e entender quanto mais os fundos liquidaram e se a indústria, nestes níveis, entrou comprando. Também vamos observar que, com a arbitragem fechando bem forte, o quanto realmente o blend poderá voltar a crescer no Arábica.
Segundo alguns experts que conversei esta semana, estaríamos bem perto de uma mudança em prol do Arábica. São 10 a 15 milhões de hedge de indústria que pode retornar a NY.
Bom pessoal, o estrago está feito. O mercado pode ainda enfiar mais 10% de queda e testar as mínimas do contrato abaixo dos 150 centavos? Pode!
A esperança de alguma reversão é no macro. Como toda semana temos novidades (poderá o “quase“ golpe na Rússia levar a um final mais rápido para a guerra??? Etc, etc…), a aversão ao risco pode diminuir e termos um retorno dos fundos ao mercado, ou o Real se desvalorizar ou termos uma valorização interna em Real.
Mas no macro a “bolinha de cristal“ não funciona.
No fundamento, um verão bem forte no hemisfério norte e um inverno até agora calmo no hemisfério sul não ajuda a questionamentos sobre oferta e demanda. A safra brasileira segue sendo colhida. O mercado deveria reagir um pouco no início da semana, até por tomada de resultados dos vendidos, porém a tendência em geral é negativa no curto prazo, salvo novos fatores macroeconômicos.
Boa semana a todos!
Boa sorte aos Ucranianos!
*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.