Mercado fechou nessa última sexta-feira, em 185,15 centavos base Março, contra um fechamento sexta-feira retrasada de 180 centavos.
No campo dos fundamentos tivemos uma atualização da expectativa de safra 24/25 do Brasil pela CONAB. Segundo o órgão, a safra deve alcançar 58,08 milhões de sacas, cerca de 5,5% acima da safra anterior. Deste total, 40,75 milhões de sacas serão de Arábica e 17,33 milhões de sacas de Conilon/Robusta.
A produtividade média nacional deve ficar em 30,3 sacas por hectare, 3% acima da safra anterior.
Como já comentei com vocês, do momento em que não faço mais viagens de estimativa de safra, também não critico nem elogio estimativas que vêm ao mercado. Porém, para ser sincero com vocês, estes números da CONAB tem impacto ZERO nos movimentos de mercado.
Vamos lá… em números bem genéricos, apenas para termos um direcionamento:
De Julho a Dezembro de 2023 foram exportadas cerca de 23 milhões de sacas, e o consumo interno deve ter sido algo em torno de 11 milhões de sacas. Um total de 34 milhões de sacas consumidas. Se continuarmos no mesmo ritmo (aqui desconsiderando consumo interno menor no verão), vamos consumir até Junho/24, 68 milhões de sacas, para uma safra perto de 55 milhões em 23/24…ou seja, um déficit de 13 milhões de sacas.
Vamos considerar que pelo menos temos de 5 à 8 milhões de sacas de carrego entre safras, estamos falando de um déficit de 18 à 20 milhões de sacas.
Não existe safra negativa, então:
- Consumo no Brasil muito menor que 22 milhões de sacas, ou…
- As exportações vão ter que cair para perto de 2 milhões de sacas/mês (incluindo Janeiro), ou…
- Consumimos 18 à 20 milhões de sacas da safra 22/23, que segundo a CONAB foi de 51 milhões de sacas. Ou seja, ficaram de estoque de passagem 39% da safra brasileira ano passado nos armazéns e Fazendas, ou…
- Um conjunto das alternativas acima para fechar os números.
Antes de tomarmos alguma decisão, minha sugestão é esperar os números dos privados e tirar uma média.
Tecnicamente a força de Londres continua dando uma ótima sustentação para NY, para que a arbitragem não feche ainda mais. Vamos somar a isto a contínua incerteza sobre o impacto do clima na próxima safra brasileira.
No macro nenhuma movimentação no mercado. Apesar do ambiente geopolítico ter esquentado com os bombardeios no Iêmen, a troca de “gentilezas“ entre Iran e Paquistão (considerando que o Paquistão possui armas nucleares e não é exatamente um modelo de estabilidade), e o ditador da Koreia do Norte aumentado o grau de belicosidade na península, as Bolsas americanas continuaram e subir e as Notas do Tesouro não sofreram impacto. O impacto maior continua sendo o aumento dos custos e do tempo entre Vietnam e Europa. Para uma situação de estoques já bastante complicada de Robusta, a força da inversão de Londres tenta atrair mais café ao mercado o quanto antes.
A nível global também tivemos o Fórum Econômico de Davos. A China enviou uma grande delegação para a reunião de Davos, tentando mostrar um contínuo crescimento, estabilidade e moderação. Ficaram algumas dúvidas a razão que um pais com população decrescente e um crescimento perto de 6% ao ano, ainda precisa enfatizar tanto a necessidade de uma série de estímulos financeiros e fiscais.
Na questão de commodities de alimentos, vejo pouco ou nenhum impacto que a realidade não seja tão bela… agora, para quem está apostando em metais e energia…
Falando em China, destaca-se também que o país ficou em 6% lugar em destino de exportação de café no relatório do CECAFE. Um aumento de cerca de 300% ao ano. Óbvio que o consumo não subiu 300% em 1 ano (isto são movimentos de estoques), mas tambem é óbvio que o consumo vem aumentando (não só lá, mas em toda geografia do Oriente Médio à Ásia) com as novas gerações transacionando do chá para o café (seja em formato solúvel, 3 em 1, RTD, etc…).
Se olharmos de forma conservadora um crescimento de 0,5 à 1,0% ao ano no consumo mundial, partindo de 170 ou 175 milhões de sacas (aí o detalhe não importa), estaremos perto de 200 milhões de sacas em 15 a 20 anos. De onde vão vir 30 milhões de sacas, ano a ano paulatinamente… da África???
Uma boa notícia que li esta semana, é que continua caminhando bem, e em fase de elaboração pela Secretaria de Inovação, Desenvolvimento Sustentável, Irrigação e Cooperativismo (SDI) do MAPA, a Plataforma AgroBrasil + Sustentável. Será uma ferramenta muito importante, digital, governamental, voluntária, universal e gratuita. A expectativa é de que os primeiros módulos estejam disponíveis em Julho deste ano, contribuindo com a transparência dos processos produtivos e com a redução de riscos e custos em toda a cadeia de valor. O Brasil sairá bem na frente.
Não existe uma boa razão no momento para os Fundos saírem de suas posições em volume. Como dividi com vocês semana passada, tecnicamente relativo a alguma instabilidade geopolítica mais forte, o mercado pode testar novamente 175 centavos.
Do ponto de vista do fundamento, até um norte melhor da safra Brasil e normalização estoques de Robusta, o mercado é firme.
Boa semana a todos!
*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.