O mercado fechou esta sexta-feira em 224,80 centavos, contra um fechamento sexta-feira retrasada em 222,35 centavos.
Na semana após a divulgação do USDA, o mercado continuou a mostrar resiliência, com bons volumes, à nova tentativa de romper os 240 centavos. No fundo, no fundo, é o mercado de Robusta que ainda dá muito suporte aos mercados, por enquanto.

Se o mercado tem grandes dúvidas sobre a quebra de safra no Brasil, as dúvidas no Vietnam são gigantes. Percentualmente são diferenças muito grandes entre os números do USDA e outros no mercado. E isto é importante pois existe um crescimento de consumo bem interessante fora do eixo dos milhões (EEUU-USA-BRASIL-JAPÃO), e muito deste consumo, principalmente nos últimos 2/3 anos está ligado a produtos competivos (vis a vis as altas exportações globais das empresas de solúvel), que paulatinamente substituem/competem com o consumo de chá, principalmente para as novas gerações.

O ajuste do USDA para a safra corrente para 29 milhões de sacas, indicam que o Vietnam deve continuar exportando normalmente… muitos no mercado duvidam.
Não faz sentido realmente… os preços atuais “arrancam“ o café do mato no mundo inteiro… menos no Vietnam… ainda mais quando adicionamos os diferencias na arbitragem, o café Robusta do Vietnam está basicamente mesmo preço que o Arábica Brasil.

Em relatório emitido, a OIC manteve sua oferta global de café em 178 milhões de sacas para o período Outubro 23 à Setembro de 2024. Nos primeiros 7 meses deste período as exportações globais chegaram a 80,99 milhões de sacas (+ 11% ano a ano).
O consumo global também continua previsto em 177 milhões de sacas… ou seja, temos aí 5 meses para exportar e manter mercado interno. Isto é, quase 90 milhões de sacas para atender a demanda global.
Dá para entender a preocupação com os volumes de Vietnam (e de Brasil). Tem mais café saindo do mato em várias origens… mas sem Vietnam e Brasil… a conta não fecha.

Outro ponto que achei interessante foi o estoque de passagem previsto pelo USDA para o Brasil. Menos de 3 milhões de sacas. 20 dias de exportação!
Não precisamos nem esperar a próxima safra do Vietnam. Nos próximos meses os volumes de exportação vão ditar, se 240 centavos vai ser apenas mais um suporte. Ou…
Macro.

Vários amigos perguntam se até o momento a ótima conjunção NY – Dólar vai se manter. Minha opinião (a mesma a vários meses): o Dólar continua sendo amigo!

Vamos lá:
Por aqui: no 1° trimestre & ultimo trimestre 2023:

  1. PIB de 0,8%;
  2. Crescimento da renda e consumo das famílias: 1,4%;
  3. Queda do desemprego;
  4. Agro: +11,3%;
  5. Indústria: – 0,1%;
  6. Possibilidade real do BC não mexer na taxa básica na próxima reunião.

Por lá:

  1. EEUU cortando juros pela primeira vez em anos. EUA, mercado dá como certa pelo menos 1 corte no segundo semestre;
  2. Economia do EUA desacelerando;
  3. Índices de preços ao consumidor abaixo da expectativa de mercado nos EUA;
  4. Apesar da criação de 232 mil novos empregos em Abril, a taxa de desemprego subiu para 4,0% (contra 3,7% a um ano atrás). A criação de empregos e o aumento da base salarial continuam sendo pontos de muita relevância para o FED.
    Essa resiliência, caso continue, pode muito bem atrasar ainda mais o corte de juros.

Com excessão da criação de novos postos de trabalho, tudo acima deveria a mostrar uma tendência de enfraquecimento do Dólar frente a várias moedas, inclusive emergentes. Não está acontecendo.
Aparentemente, o apetite de risco de hoje está bem diferente de 10, 15, 20 anos atrás, quando as taxas de juros ficavam perto de zero.
Até pouco tempo atrás, um spread de juros de pelo menos 5% era muito vantajoso entre USA e Brasil, contra aplicações de menos de 2% em dólar por lá. Hoje com um spread muito perto de 5%, você consegue Notas do Tesouro Americano a 4%, aplicações em “bonds” (algo similar a debentures) em empresas AAA ou BBB+ americanas de 6-8% de rendimento.
E você pode jogar no blend ainda os conflitos atuais (Ucrânia, Gaza, etc..) e tensões geopolíticas ( USA & China) para tomar suas decisões de risco & beneficio de onde aplicar seu dinheiro. Mesmo assim o pessoal comenta comigo: Ok, estamos falando de spread de aplicações, mas e os ativos brasileiros (BOVESPA) que estão extremamente “baratos”… porque não entra capital especulativo pelo menos?… porque o REAL não valoriza?
Não é somente uma questão de risco puro… é uma questão de confiança: você confiaria na política fiscal do atual governo? Na independência monetária do BC? Na estrutura de segurança jurídica atual??

Falando em Bolsa, algum de vocês a dois anos atrás já tinham ouvido falar na NVIDIA (uma das líderes no mercado de inteligência artificial/plataformas/programcao)?… pois é, essa semana as ações dessa empresa ajudou a impulsionar a NASDAQ (Bolsa de valores americana com forte presença da indústria de tecnologia) a recorde históricos. No pico, a NVIDIA superou a APPLE como a segunda maior empresa dos EUA.
A pergunta não é porque eles não estão investindo na BOVESPA daqui… a pergunta é porque não vendemos café a $1.300/$1.400 reais, e não investimos 50% em debêntures de empresas AAA a 6/7% e 50% em ações de NVIDIA ou similares?… se a gente olhar “fora da casinha“, algumas conjunções de oportunidades passam de vez em quando.

Do lado da demanda, interessante relatório do COBANK (grande banco cooperativista nos USA). O relatório do banco indica que os preços altos do café vieram para ficar até que a produção consiga novamente balancear os estoques baixos atuais.
O relatório indica que desde 2018 o consumo de café no OMEA (Oriente Médio e Ásia) cresce 14,5% ao ano. Segundo o Banco, a média anual atualmente é de 3,4% de crescimento global. Este número é até acima da OIC (2,5%). Um pouco que corrobora o que mencionamos acima, que o consumo fora do eixo dos milhões pode ser sim, uma das contínuas fontes de suporte deste mercado. Não à toa a Chinesa LUCKIN fez um hedge em cima do Alckmin… vai que o VIETNAM realmente fique perto das previsões mais baixas?!?! Afinal, de memorando de intenções o inferno tá cheio!! (neste tema importante lembrar que a China vem aumentando não somente a compra de café, mas de várias outras commodities… somente precaução??)

Apesar do ajuste negativo de sexta-feira, rebatendo a resistência dos 240 centavos, o mercado tem bom suporte. Muitas dúvidas e poucas certezas na produção. Dólar deve continuar ajudando.
Ah, a MP do PIS/COFINS… deixa para semana que vem… não vamos estragar o final de semana.

Boa semana a todos!

*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.