O mercado fechou ontem em 180,00 centavos, contra sexta-feira retrasada em 182.80 centavos base Março.
Continuamos no mesmo ciclo de incertezas.

Fundamentalmente, estamos assim:
● Os estoques mundiais nos níveis mais baixos dos últimos 12 anos;
● Estoques certificados que têm muita dificuldade de se recompor;
● Vietnam e Colômbia, ambas com seus problemas de recomposição de embarques e estoques;
● E por fim, as incertezas quanto a próxima safra Brasil, devido ao clima anormal.

Com problemas em dois principais produtores de Robusta (Vietnam e Indonésia), Londres não parece firme em ultrapassar e se manter acima do 3.000 dólares por tonelada.
A arbitragem contra NY volta a se aproximar dos 40 centavos no Março, e isto também deve trazer suporte ao mercado de Arábica.
O fluxo de safra do Vietnam está bastante “travado“ com o café no “mato“ chegando perto dos 3 dólares/kg. A esperada melhora no fluxo antes dos feriados TET no Vietnam por enquanto não se realizou. Junte a isto os problemas de navegação devido aos conflitos no Golfo, com muitas empresas de navegação optando por rotear entradas na Europa dando a volta pela África, aumentando consideravelmente o custo bem como atrasando pelo menos 10 dias a viagem que normalmente seria efetuada pelo Canal de Suez.
O único alento no momento é a manutenção dos embarques brasileiros perto das 4 milhões de sacas ao mês.

No macro não existiram movimentações na semana que pudessem mudar a posição comprada dos fundos. Apesar das notas do tesouro americano terem dado uma leve puxada no final da semana, provavelmente o que deu uma segurada no mercado foi o retorno mais constante das chuvas no Brasil agora em Janeiro.

O trade está saindo destes dois últimos cliclos bastante chamuscado (vide a complicada recuperação judicial da Mercon). Ou seja, estamos falando de um mercado que vai continuar a ser bastante volátil e algumas vezes sem muito sentido com o que vemos no campo, mas sim com sentido dos movimentos econômicos de juros, e políticos (o que poderá acontecer nesta próxima semana na situação do Golfo??).

Para não dizer que só critico a política local, essa semana um dos maiores Fundos globais (de posições ETF’s) com ativos aplicados de 48 bilhões de dólares, indicou que o Brasil pode ser a bola da vez para investimentos em 2024. Em resumo, o executivo do fundo cita a queda do juros, controle da inflação, política fiscal responsável de Haddad, e um congresso conservador como contra-ponto às peripécias do partido de plantão.
Várias empresas relacionadas ao consumo, segundo o Fundo, estão subvalorizadas no mercado brasileiro. Veremos… mas temos que admitir que os valores no final do ano foi um presente!

Interessante o anúncio da Nestlé de um novo investimento na sua fábrica no Vietnam. Será um investimento adicional de US$ 100 milhões que deve dobrar a capacidade de produção. Está é uma de muitas notícias de investimentos em fábricas de café no Vietnam que temos observado nos últimos anos. Com uma capacidade de produção estacionada entre 27 e 30 milhões de sacas, volumes cada vez maiores absorvidos pelas indústrias locais, uma população jovem que já chega aos 100 milhões de habitantes e transiciona do chá para o café, e capacidade de aumento de área restrita devido principalmente por competição de outras culturas frutíferas/pimenta e pelas novas regras de desmatamento na União Europeia, a longo prazo a situação do Robusta globalmente começa a ficar bastante interessante.
Com o uso gobal nos blends variando de 40 à 50% dependendo a quem você pergunta, e com o crescimento global do consumo orgânico de pelo menos 0,5 à 1,0% ao ano, não é de surpreender a Nicarágua com produção de Robusta, Colômbia com planos de início de plantio e por aí afora. Melhor pra evitar a falta, é já matar o mal pela raiz, não é?

Outro assunto de interesse, que não é uma grande novidade, mas tende a crescer:… um forte grupo de defesa dos consumidores nos USA está processando a Starbucks a nível federal alegando que a empresa engana os consumidores alegando nos seus anúncios, que seus cafés e chás tem o compromisso de ser 100% ético. Este tema vai ganhar mais e mais notoriedade, pois não só grupos de defesa de consumidores, bem como também acionistas e entidades governamentais poderão processar empresas que falsamente anunciam ou publicam dados considerados falsos, que possam caracterizar o famoso “Greenwashing“ (e põe ai qualquer coisa para eles acreditarem). Lembrando que o ônus cai no acusador, porém basta uma… uma compra, com algum problema ambiental ou trabalhista, que o 100% vai por água abaixo e a conta de indenização pode ser grande.

Mercado pode até testar tecnicamente níveis de 175 até 172,50 centavos, porém tanto do ponto de vista do fundamento de médio prazo, como do macro de curto prazo, um novo teste dos 200 centavos deve acontecer.

Boa semana a todos!!

*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.