O mercado fechou esta sexta-feira em 223,35 centavos base Julho, contra sexta-feira retrasada em 231,85 centavos. Um pequeno ajuste que estava por vir na semana, e que pouco deve mudar a grande posição comprada dos Fundos. Próximos grandes suportes em 214 e 204 centavos.
Nada de novo no mercado. O de sempre! Robusta Vietnamita mais caro que café fino Brasileiro e agora, até do Colombiano.
O mercado tem sua própria inteligência… uma hora vai se ajustar.
Seria um ajuste de oferta? O Arábica volta a subir abrindo a arbitragem, ou a demanda cede e o Robusta começa a cair??
O Vietnam, apesar do todos os problemas, continua exportando em um ritmo forte.
Após um período de forte calor e chuvas abaixo da normalidade, a época normal de chuva volta agora em Maio. Projeções diversas temos. Alguns veículos indicam que ficaremos abaixo da média histórica, e outros indicam volta da normalidade com o fim do El Niño.
Segundo USDA, dos 74 milhões de sacas de Robustas produzidas no ciclo 23/24, cerca de 27 milhões virão do Vietnam. O ritmo de exportacao indica que os números estão corretos (independente se for carrego de safras passadas).
Segundo o mesmo órgão, o consumo mundial será em torno de 170 milhões de sacas.
Se o blend de Robusta realmente chegou aos 45%, quase 77 milhões de sacas seriam Robustas. Ou seja, um deficit de cerca de 3 milhões de sacas.
Já no Arábica, a produção seria de 97 milhões de sacas (cerca de 45 milhões do Brasil). O saldo da demanda (170-77) seria de 93 milhões de sacas. Ou seja, um superávit de 4 milhões de sacas (o ritmo de exportação do Brasil também não nega a estatística).
Teríamos assim uma possibilidade de migração de Robustapara Arábica, com zero margem de erro na produção. Concordo. Espaço mínimo, mas daí Robusta a valer mais que café fino brasileiro??
Será a migração maior para simplesmente deixar o Robusta com um pequeno superávit, porém sem estoques, e impulsionar o Arábica a um déficit (arbitragem voltando a abrir e café fino do Brasil voltar a valer mais que Tipo 2 Vietnam)?
Poderia isto ocorrer simplesmente pelo mercado desabando no Robusta com uma possível queda de demanda devido as preços altos?
A equação continua bastante complicada. Segundo relato da RR Consultoria, que possui quase 30 mil hectares sob orientação agronômica, podemos ter uma supresa na safra Brasil de 24/25. Ao invés de um crescimento de 10 a 15% sob a 23/24, podemos ter um número igual ou menor.
Se a demanda crescer 1,5%, lá se vai o superávit (considerando as outras origens mantendo o mesmo número… o que hoje ainda é factível… o impacto dos preços em novos plantios não veremos por 2/3 safras). Ou seja, não sabemos se a próxima safra do Vietnam vai sofrer novamente, e ainda não sabemos a extensão do problema na safra brasileira que na verdade mal começou.
Do ponto de vista exclusivamente dos fundamentos de oferta e procura vejo pouco incentivo para os Fundos derreterem as posições compradas.
Por outro lado, como estes preços afetarão a demanda? A “gordura” que as grandes torrefações têm, não dura para sempre. Quando digo gordura, não falo apenas de estoques físicos. Sabemos que pelos juros, pelas novas regras do mercado comum europeu, problemas logísticos, etc… os estoques físicos devem estar baixos, porém não podemos esquecer que o mercado já está invertido a bastante tempo, e que durante vários meses transitamos com valores de NY abaixo de 200 centavos. Isto deu ampla possibilidade aos torradores de fixar seus preços em NY a custo zero (compravam as posições futuras mais baratas que as presentes).
Agora seria somente encaixar os diferenciais.
Se estão tendo que renegociar os contratos físicos de Robustas, não consigo mensurar este impacto, mas pode ter sido compensado por diferencias mais competimos no Arábica.
Como vemos que os volumes possíveis de migração não são lá altos, difícil também cravar um derretimento no Robusta por um vácuo de compra. Difícil também cravar que a demanda vai zerar o crescimento orgânico, ou até retroceder, para ajustar o mercado para baixo.
Sabemos do histórico de inelasticidade do consumo de café, porém fazem também 40 anos não vemos uma inflação neste patamar na maioria dos países. Ainda considerar um crescimento global de 1,5% para 2024 é factível,
A Luckin Coffee que já ultrapassou a marca de 16 mil pontos de venda, acabou de inaugurar sua nova torrefação, com capacidade de 500 mil sacas. Ao todo, sua capacidade de produção, ja chega a 750 mil sacas anuais. Para 2025, veremos…
Sabemos que o cenário macro tem cada vez maior impacto nas Commodities. Um dólar forte tende a suportar bons preços em Reais, mas a conta pode vir depois na forma de inflação de insumos, ou até um ajuste na Bolsa. Os comentários aqui podem levar a crer que tudo é péssimo para o Real, e tudo são flores para o Dólar… não é bem assim.
Para começar, levou 100 anos (base 2008) para os EUA chegarem aos $100 trilhões de dólares na dívida pública. Os últimos $10 trilhões levaram apenas 4 anos! O déficit esperado no orçamento americano para 2024 esta em $1,8 trilhões de dólares (acumulado 123% do PIB).
Com a economia aquecida e os juros altos, o governo vai ter que refinanciar cerca de $9 trilhões de notas vencendo em 2024 a juros bem mais altos que os originais, o que joga uma dívida ainda maior para o futuro. Pior se a economia entrar em uma recessão… sobra muita pouca munição monetária para estímulo.
Por lá a economia e o BC ainda tem certa credibilidade para arrumar compradores da dívida… ninguém acredita em default do governo americano nas suas dividas. Porém, se o cenário for se deteriorando, compradores vão querer cada vez maiores retornos para compor o risco. Isso é mal sinal para países emergentes que estão no mesmo caminho de falta de controle nas contas públicas. O dólar vira apenas o patinho menos feio no lago.
Segundo alguns especialistas, a fuga da inflação nos últimos períodos por la é apenas um ajuste na curva. Eles acreditam que a trajetória ainda é de desacelaração inflacionária, e os juros ainda vão cair este ano. Veremos… Porém, imaginem como seria nossa trajetória se tivéssemos seguido com o equilíbrio das contas públicas e as reformas necessárias. Como nossa dívida em percentual do PIB é menor que a dos USA (cerca de 77%), seríamos possivelmente um grande foco de investimento. Mais uma oportunidade perdida.
Não e de surpreender que 67% dos jovens entre 16 e 35 anos desejem deixar o país. A picanha e a cervejinha não veio.
Não podemos esquecer as tensões geopolíticas que podem, de uma hora para outra, jogar tanto o fundamento como o macro pelo ralo. O preço do Ouro está perto do seu recorde histórico. Historicamente isto muito difícil acontecer quando o Dólar esta forte.
Olhando para o nosso café, a volatilidade vai continuar alta com início da safra Brasil de Arábica, e o inverno e do outro lado do mundo, as chuvas ou não no Vietnam. Não existe margem de erro.
No lado da demanda ainda é cedo para podermos observar qualquer corrosão, mas acima dos 240/250 centavos (onde a ultima grande precificação foi feita) poderemos sim ter, com um desgaste inflacionário já muito mais presente no bolso da turma. Novamente… nos níveis atuais, pouca margem de manobra. Em termos cambiais o preço em Reais deve continuar bom. A constância de venda do produtor por aqui parece uma estratégia muito boa. Os resultados sao bons… o ajuste que o mercado fará, não sabemos.
Boa semana a todos!!
*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.