O mercado fechou nesta sexta-feira em 200,75 centavos, contra sexta-feira retrasada em 223,35 centavos. O mercado ajustou, o Robusta cedeu. O mercado passou voando pelos 214 e depois 204 centavos, atingindo o support de 200 centavos. A rasteira não veio de um lado só.

Começou no início de semana com ajustes no macro. Aumentos reais da média salarial americana bem acima do esperado, foi uma “pá de cal” para desânimo com possíveis reduções do juros por lá no curto prazo (e até aumentando as possibilidades de novos aumentos). Bolsa tomou um tombo, dólar valorizou, notas do Tesouro de curto e longo prazo tiveram incremento… eu não poderia dizer exatamente porque no arquipélago dos algoritmos, aquilo começou a gerar ordens de vendas, porém quando uma alocação que em seis meses gera 40% de retorno (em média no café – Bolsa NY), em algum momento essa transferência para um “Porto Seguro“ de notas do Tesouro beirando 5% iria acontecer.

Do meio para o final da semana, dois fatores poderiam ter estancado as vendas no 214 centavos e, na sexta-feira até termos alguma recompra voltando aí para o patamar de 223 centavos:

  1. O volume de empregos gerados em Abril nos USA foi de 175 mil, abaixo dos 250 mil projetados pelo mercado.
  2. O discurso do Presidente do FED, foi bem mais brando que o mercado esperava.
    Basicamente dizendo que realmente os dois meses de inflação acima do esperado requer atenção, mas não muda a trajetória da queda a longo prazo, e será possível redução de juros no segundo semestre.
    Manteve a taxa básica entre 5,25 e 5,5%, porém com um viés bem neutro. Isto também teve um impacto no Dólar, que enfraqueceu, e as Bolsas voltaram a subir.
    Porém junto, veio a segunda rasteira… dos fundamentos.
  3. CLIMA::
    A. As chuvas no Vietnam estavam já fatoradas a duas semanas, porém sua chegada não funcionou como nenhum gatilho de suporte.
  4. SOBRE DEMANDA: vejam a sequência de notícias:

A. Starbucks: As vendas globais comparáveis da cadeia de café no segundo trimestre caíram 4%, em comparação com um aumento de 1,44% estimado pelos analistas, segundo dados do LSEG. “Ainda vemos os efeitos de uma recuperação mais lenta do que o esperado e vemos uma concorrência acirrada entre os players de valor no mercado”, disse o CEO Laxman Narasimhan em uma teleconferência pós-lucros.

B. Nestlé: Nestlé reportou um crescimento baixo de vendas de um dígito no primeiro trimestre para o seu segmento. Nestlé também reportou um declínio anual de 4% nas vendas da Nespresso no primeiro trimestre, para 1,5 mil milhões de Francos Suíços (1,6 mil milhões de dólares), mas destacou o forte impulso das suas máquinas de café em cápsulas Vertuo para uso doméstico e Momento para uso externo.

C. Tim Hortons: as vendas recuaram 7% no trimestre, e foram fechadas 20 lojas nos EUA.

D. Esses resultados nada animadores já vem na esteira de outras torrefações como JDE e Lavazza que já haviam anunciado redução de vendas e queda nas margens… não foi então muita surpresa, e a indústria não teve muito apetite em tomar o mercado na deslizada para os 2 centavos…

  1. SOBRE OFERTA:

A. “A exportação mundial de café alcançou 12,99 milhões de sacas de 60 kg em Março, o sexto mês da safra 2023/24. O volume corresponde a um aumento de 8% na comparação com igual mês de 2023 (12,02 milhões de sacas). Os números fazem parte de relatório mensal da Organização Internacional do Café (OIC).
Nos seis primeiros meses da safra, os embarques aumentaram 10,4% na comparação anual, para 69,16 milhões de sacas.
Nos 12 meses encerrados em março de 2024, a exportação de Arabica totalizou 77,92 milhões de sacas, ante 76,63 milhões de sacas nos 12 meses encerrados no período anterior, aumento de 1,68%. Já o embarque de Robusta aumentou 4,97% na mesma comparação, de 49,08 milhões para 51,52 milhões de sacas.”

B. “Os estoques certificados de café na ICE Futures US tiveram alta de 7.142 sacas, indo para 689.179 sacas.”

C. “Nos 12 meses encerrados em Março de 2024, a exportação de Arábica totalizou 77,92 milhões de sacas, ante 76,63 milhões de sacas nos 12 meses encerrados no período anterior, aumento de 1,68%.
Já o embarque de Robusta aumentou 4,97% na mesma comparação, de 49,08 milhões para 51,52 milhões de sacas“.

Ou seja, com excessão do Presidente do FED, nada ajudou o mercado. Não foi só em café. Várias outras Commodities apresentam queda durante a semana.

Porém, sem desespero, de uma certa forma o que aconteceu foi a constatação de algumas tendências, que não necessariamente são de longo prazo, porém requerem frieza e atenção:

  1. Sabíamos que a chuva viria no Vietnam. Qual o tamanho “real” do estrago, e se as mesmas vão se normalizar. Não esqueçamos… tem um motivo que se chamam Robusta. A CONAB de lá estimou que a próxima safra caíra para 24,5 milhões de sacas, porém o próprio USDA indica menos de 27. Mesmo as lavouras recuperando bem não será exatamente uma exuberância.
  2. Não é de hoje que preços altos e bons resultados tiram café do mato. Os bons embarques estão saindo da origem e indo para estoques ou consumo.

Já falamos do Trade não estar carregando estoques devido ao prejuízo no inverso, e a indústria devido ao juros altos e queda nas vendas. Se isto é uma verdade, o café está indo para o consumo… em algum lugar, e por indústrias que não são as grandes reportando reduções. Um ajuste agora pode não ser de todo ruim para tirar a pressão da “gondola“ nos caso das grandes torrefações.
Observemos um estudo interessante da Bloomberg, que pode dar um pouco de suporte para que um ajuste agora não seja de todo ruim do ponto de vista do consumo. O gráfico (não foi possível postar aqui, mas está disponível na mídia) mostra a evolução dos preços das Commodities que, em teoria, compõe o café da manhã, versus o índice geral de Commodities da BLOOMBERG.

  • Cacau: +150%;
  • Porco (bacon) +35%;
  • Café: +30%;
  • Suco de laranja: +20%.
    As quedas em trigo, leite e chá, foram muito menores em comparação as altas de cacau, café, suínos e sucos.
  1. Dos 170 milhões de sacas consumidas no mundo (segundo o USDA), cerca de 97 à 100 milhões de sacas se concentram em: União Europeia, EUA, BRASIL, JAPÃO.
    Temos aí depois 70 milhões em países, ou que provavelmente tem os mesmos níveis de crescimento que os tops (exemplo: Canadá, Austrália, Suíça, etc…) mas com populações menores, ou que não tem dinheiro para tomar mais do que tomam… mas gostariam (Etiópia, Argentina, Argélia, etc…).
    Dentro deste bolo de 70 milhões de sacas, também temos países que tem o potencial de crescer mais de 10% ao ano (Países do Golfo, Turquia, Índia, China, Filipinas, Indonésia, Egito…) ; seja porque a população tem poder de compra, seja porque tem uma grande população tomadora de chá que começa a engrenar no café. Esta discussão gera bastante polêmica, eu entendo. Eu não tenho dados concretos para corroborar a afirmação que um “maior desaparecimento“ está indo para locais neste bolo dos 70 milhões de sacas, mas…
  2. As bebidas geladas de café continuam a crescer vendas em ritmo forte.
  3. China: a Luckin Coffee também reportou queda no futuramento no 1° trimestre em comparação aos dois trimestres anteriores. Porém, o faturamento nas lojas próprias cresceu 46% ano a ano. Claro que o fator expansão incrível de lojas explica isto, e o resultado operacional negativo corrobora. Não quero contrariar os amigos entusiastas… não dá para confiar muito na contabilidade chinesa, mas não dá para negar que o volume de crescimento de lojas, e o importante crescimento em investimento em marketing e promoção, subindo 63% ano a ano, estão impulsionando o mercado por lá. Também importante notar que a Luckin Coffee sofre importante concorrência de outra grande rede local (Cotti Coffee), com as duas promocionando forte, com preços de $1,37 dólares o café. Pudera… o Starbucks não consegue acompanhar.
  4. Dados vindos do NCA indicam que nunca os americanos tomaram tanto café em suas diferentes formas. E apesar dos dados inflacionários da “cesta café da manhã“ que mostramos acima, alguns dados sobre o poder de compra dos americanos são animadores. Segundo artigo publicado esta semana: “A riqueza (todos ativos – todos os passivos) dos americanos dos 18 aos 40 anos de idade está 49% acima dos níveis pre pandemia. E o maior crescimento desde que a Receita Federal americana começou a compilar os dados em 1989.“

Pessoal, o ajuste que observamos esta semana ocorreu porque praticamente não observamos fatores que “ajudassem“ aos fundos manterem suas posições. Sem uma queda na demanda não temos fatores que mudem o cenário “sem margem de erro” nos fundamentos, mas temos que admitir que as notícias não foram lá animadoras. O ajuste agora pode não ser de todo ruim, tirando o dedo dos Diretores Financeiros do gatilho de preços, talvez…por enquanto. Falando em gatilho… se tivéssemos comprado quando eles compraram, vendido quando eles venderam, e colocado em notas do Tesouro a 5,25% por 20 anos, hein?… Não dá para criticar os caras né?

Devemos olhar não somente para a lavoura na nossa frente, mas também ao que acontece ao nosso redor. A disciplina dos resultados, não da adivinhação…
Ficar atento a relatórios de empresas do setor, a movimentações macroeconômicas e geo-políticas, devem ser levadas tão a serio e com atenção quanto a chuvas no Vietnam e quebras de renda por aqui.

Boa semana a todos!!

*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.