O mercado fechou esta sexta-feira em 201,15 centavos base Julho, contra o fechamento de sexta-feira retrasada em 200,75 centavos.
Tecnicamente foi um bom fechamento acima dos 201 centavos. Mercado conseguiu bater e voltar rapidamente do suporte em 193/194 centavos, e pode temporariamente se considerar acima dos 200 centavos antes de buscar novamente testar os 220 centavos.
Alguns fatores requer a atenção:
● A derrocada vindo de 230 centavos teve uma compra limitada de indústria. O mercado caiu 30 centavos sem uma expressiva queda de posição dos Fundos. Sinal que a indústria realmente começa a sangrar onde estavam os preços, e a demanda pode realmente sofrer. Pode significar que os Fundos vão procurar algo “significativo“ antes de um novo pé no acelerador.
Segundo relatório de mercado: “Ao final dos trabalhos do terminal nova-iorquino, a CFTC emitiu um novo relatório dos Traders, com data de referência de 07 de Maio. O documento apontou que os grandes Fundos tiveram uma diminuição de 11,5% em suas posições líquidas compradas. Na oportunidade, esses players contavam com 43.343 posições líquidas compradas, sendo 61.211 posições compradas e 17.868 posições vendidas”.
● Mesmo na semana recuperando acima dos 200 centavos, os volumes não foram lá grande coisa. O “momentum“ existiu até os 200 centavos.
● Os estoques certificados continuam a subir. A arbitragem Julho-Julho voltou a estar acima de 45 centavos, o que mostra que desta vez foi o Arábica puxando a fila.
Devemos estar observando alguma troca de blends em favor do Arábica. Dependendo do “algo significativo“ que acontecer com a safra Brasil, essa arbitragem pode ser uma das melhores apostas do mercado.
Em geral a semana foi positiva para Commodities, com o Dólar ligeiramente mais fraco frente a várias moedas (o Real foi e voltou). Café, Cacau, Trigo, Ouro, Prata, e outros metais se seguraram bem na semana.
No macro, nenhuma grande notícia lá de fora. A última fala do Presidente do FED acalmou os mercados, e os dados de novos desempregados nos EUA foram um pouco acima do esperado, ajudando a calmaria.
Bolsa puxou, Dólar mais calmo, porém ainda muita água para passar debaixo da ponte para uma primeira queda de juros por lá (estimativas para Setembro).
Este cenário chegou a se refletir por aqui com o câmbio chegando até R$5,07 (poucos dias atrás bateu R$5,28) até o BC reduzir os juros básicos em 0,25 pontos.
Todas as opiniões refletiam que a queda seria de 0,25 ou 0,50, porém o que o mercado não digeriu foi a votação 5×4… em linhas absolutamente políticas (4 votos de nomeados de Lula e 5 de Bolsonaro), o que dá uma sinalização do que pode ser o BC após a saída de Campos Neto. Para o Café internamente, não de todo ruim, pois ajuda a segurar os preços em Reais. A conta vem depois.
Do lado da oferta, as chuvas parece que gradativamente volta ao Vietnam. Para o país, foi um ano excelente para o setor. O país exportou nos primeiros 4 meses, um pouco acima de 12,5 milhões de sacas, com uma entrada de divisas de $2,6 bilhões de dólares. Frente ao mesmo período de 2023, é um aumento de 5,4% em volume e 58% em valor!
O preço médio de venda subiu 50%.
De um lado deve ter segurado a troca de café por outras culturas, por outro lado, esperem para ver a produção de Conilon daqui 3 ou 4 anos.
Por aqui muitas notícias de quebra de safra, com baixa renda na colheita. Realmente o calor foi excessivo durante vários períodos do ano (como agora por exemplo) e as chuvas bastante irregulares. Este pode ser sim o “fator significativo“ da volta dos nossos amigos às compras, mas não podemos esquecer que estamos apenas no começo de Maio. Próximo número USDA deve ser chave.
Os últimos dados de produção e demanda da OIC indicam que para os primeiros 6 meses do ano safra global (Outubro – Setembro) foram exportadas 69,16 milhões de sacas, um aumento pouco acima de 10% ano a ano. O órgão mantém a expectativa de uma quebra acima de 5% na produção para este ano safra, e um aumento de consumo de 2,5%. 178 milhões de sacas de produção…177 milhões de consumo. Muito dos aumentos mais significativos vindo dos “70 milhões“ novos que comentamos no último relatório. Claro que o principal “new kid“ é a China.
A chave para que café na China vire “consumo regular & moda do momento“, pode estar acontecendo exatamente agora.
Os últimos estudos indicam o consumo vem crescendo, e não somente das bebidas com leite, mas sim no tradicional expresso ou o K Cup americano.
Mesmo com uma redução no giro das lojas tendo diminuído um pouco, as ações de preços e ofertas “kamikazes“ das duas maiores redes (Cotti e Luckin) estão aumentando o consumo. Não surprendente a queda de vendas do Starbucks por lá.
O mesmo café que custa 30 Renmibis no Starbucks, a Cotti vende por 9,99!
Relatórios indicam que as tensões políticas, crise no setor imobiliário, alto desemprego entre os jovens, etc… tem causado a maior busca pelo café como bebida estimulante, porém os preços tem que casar com o “bolsa da crise“! Parte explica o sucesso destas redes low price!
Se a estratégia vai funcionar (mesmo caso da Didi tirando Uber do mercado), ou estas redes vão abrir o bico antes, iremos ver. Mas o importante é o aumento do hábito dos novos consumidores… (e depois de “expulsar“ a Uber … os descontos da Didi desapareceram).
Outro dado interessante vem dos EUA, individualmente o maior mercado global de café. A terceira maior rede de drive thru de café, Dutch Bros. (ficando atrás apenas de Starbucks e Panera) com 876 drives em 17 estados, indica um aumento de 39% no faturamento ano a ano no primeiro trimestre. A expectativa é um faturamento de $1,2 bilhões de dólar este ano frente 966 milhões em 2023… 2/3 de todas as vendas são efetuadas pelo app da empresa, que oferece descontos e promoções. O carro chefe é o café com proteína!! Mais um exemplo que preço e inovação fazem a diferença.
Por aqui, a Nestlé anunciou um novo investimento de US$ 200 milhões em 2 anos, para aumentar a capacidade das vendas OOH (fora de casa) da sua linha Nescafé. Segundo executivos da empresa, existe um aumento significativo nas vendas para o público mais jovem, com grande interesse para inovações como café gelado, com sabores, etc… ou seja, inovações!
Pessoal, seja pelo USDA ou pela OIC, os números estão bem apertados. Os canhões estarão realmente agora virados para cá, já que parece que no Vietnam, as chuvas estão voltando a normalidade.
Do lado da oferta, nenhum espaço para problemas. Do lado da demanda, como conversamos semana passada, o retorno do mercado neste momento pode não ter sido de todo ruim. Apesar do consumo parecer estar se segurando, inovações e preços competitivos com o cenário inflacionário mundial parece ser uma fórmula importante no momento.
Boa semana a todos!
*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.