O mercado fechou sexta-feira em 225 centavos base Setembro, contra um fechamento sexta-feira retrasada em 224,40 centavos. O mercado na semana foi de altos e baixos, com Londres vindo forte no dia 19 (feriado nos USA), e arbitragem puxando NY no dia 20.
No final da semana, o relatório do USDA deu uma certa base para venda com o mercado não tendo força para buscar e sustentar os níveis de 234 centavos.

Os estoques certificados, tanto em Londres como em NY, continuam a se recuperar… lentamente, mas existe uma recuperação frente a níveis baixos históricos atingidos meses atrás.

A posição dos Fundos ainda permite adição de volume razoável de compra, porém o outro lado da moeda existe. A chave estará nos embarques de origem.

No macro as premissas pouco mudaram. Lá fora a expectativa continua sendo do FED realizar apenas 1 corte nos juros no segundo semestre.
Aqui o “joguinho combinado“ de um assopra e o outro alisa no BC, não enganou o mercado.
O ataque de Lula a Campos Neto, um dia antes da votação sobre os juros básicos, com certeza foi “macumba encomendada“. A turma do Lula dentro do BC não tinha alternativa, à não ser votar pela manutenção da taxa básica. Caso votassem contra, além de assinar embaixo a incompetência perante os dados macroeconômicos, dariam ainda mais fôlego para a desvalorização do Real. Lula já sabia. Com isto pelo menos tentou mostrar como a sua turma lá dentro é independente. Porém, ao invés de pelo menos transparecer sua sabedoria estratégica, continuou a atacar o Presidente do BC na sexta-feira, dando mais fôlego ainda, que a transição do BC pode ser novamente combustível para o Dólar. Tiro no pé atrás de tiro no pé.
O mercado ainda enxerga com muita desconfiança, a capacidade de Haddad e Tebet (com a ajuda de Pacheco no Senado) de equilibrar a política fiscal. Lula não tem porque mudar a direção antes das eleições municipais. Se perder, terá pouca escolha, a não ser ajustar, porque aí será morro abaixo para 2026. Se ganhar, emplaca um novo Presidente do BC e se respalda na popularidade para novamente, enfiar o “pé na jaca“.
Até agora já tivemos R$43 bilhões saindo da bolsa em 2024 (fora as remessa privadas) .

Globalmente, existe para os próximos meses, toda uma tendência para o enfraquecimento do Dólar. A dívida interna americana deve subir mais US$ 2 trilhões este ano. Com a economia resiliente e baixo desemprego, os cofres deveriam estar enchendo e não esvaziando.
A moleza do governo captar a juros baixíssimos também já se foi, e o que ainda segura é toda tensão geopolítica global que ainda acaba atraindo fluxo para as notas do Tesouro. Mesmo assim, não é à toa que muitos BC’s estão comprando Ouro (não é só a China) como hedge contra o Dólar.
A desvalorização do Dólar não vai vir pela estratégia engenhosa do “Sul Global“ substituir o Dólar como reserva ou moeda de troca…vai vir da própria incapacidade do governo de controlar seu déficit fiscal.
O problema é que nossa incapacidade ainda é maior de gestão fiscal, fora que eles têm um BC independente que mantém uma política monetária austera (juros). O nosso ainda também é… até quando??
Não era uma regra fixa, mas muitas vezes quando o Dólar se valorizava, os valores em Reais ao produtor melhorava, o café saia do mato, os diferenciais abriam um pouco, o Brasil ficava competitivo, mais negócios de exportação saiam, e NY cedia.
O inverso quando a moeda local valorizava. Porém, hoje temos um cenário onde as questões macroeconômicas tem um peso muito grande na relação das moedas, e consequentemente temos essa ótima conjunção para o produtor, nos fundamentos positivos nas Bolsas e fundamentos macroeconômicos negativos para o Real. Em teoria teremos alguns meses nesta conjunção.

Certas oportunidades de vendas em Reais (presentes e futuras) devem ser aproveitadas. Vou bater na tecla novamente… escadinha de vendas e foco no resultado!

Nos fundamentos não vou repetir todos os dados do relatório global do USDA que saiu esta semana. Todos devem ter visto os dados e comentários. De todos os dados, gostaria de ressaltar o seguinte: o USDA prevê um crescimento da oferta global de 7 milhões de sacas entre a safra 23/24 & 24/25. Neste aumento está computada a safra de 29 milhões no Vietnam e 48 milhões (Arábica) no Brasil. Não vou aqui disputar números, apenas alertar que outros dados com certa confiabilidade no Vietnam, indicam a safra deve ficar entre 24-25 milhões e, no Brasil dados da própria RR Consultoria (um pool de amostras com quase 30 mil hectares) indica a safra, na melhor das hipóteses, será igual entre as duas safras.
Ou seja, temos um risco dos 7 milhões virarem pó. Eu diria que é um risco bem quantificável para manter o mercado suportado pela posição especulativa (com boa volatilidade é claro… sempre;

O impacto no Robusta é mais evidente com as dificuldades de originação no Vietnam e os prêmios altíssimos, o que continua dando bom suporte no mercado (vide dia 19). Não vejo nenhuma surpresa nos números de consumo por enquanto.

O clima continua favorecendo a colheita que avança dentro da normalidade (talvez até um pouco acima da média) no Brasil.
O clima no Brasil no momento não é fator no mercado. O inverno está se iniciando oficialmente, e logo teremos a chegada de frentes frias mais fortes. Se por aqui não é muito assunto, volta ser fato no Vietnam. As chuvas voltaram em Maio, porém Junho está abaixo da média. Novamente uma tendência preocupante para a formação da próxima safra.

Falando em consumo, reportagem nos USA indica que até a rede Starbucks, sempre avessa a descontos e promoções (achavam que denegria a imagem premium da marca), precisou entrar com essa estratégia para retomar o “trafego“ nas lojas (testaram várias promoções durante parte do mês de Maio. A queda no tráfego foi de 7% nos primeiros 3 meses de 24).
Várias outras redes também começaram promoções indicando uma redução do tráfego nas lojas (McD, Burger King).
Segundo consultorias, o preço médio de um “coffee simples grande“ no Starbucks está em US$3,65 (49% acima que em comparação a 2020), e os descontos chegaram a 50%.
A reportagem não indica ainda qual foi a recuperação de tráfego.

Entrevista com vários consumidores indicam que não é só o preço, também a demora no atendimento tem influenciado (corte de pessoal??). Os consumidores simplesmente estão dizendo que é mais rápido e mais barato fazer em casa. O que corrobora vários estudos que indicam que o consumo doméstico de café pós pandemia, veio para ficar.

Uma reportagem interessante da revista “The Economist“ relata o crescimento exponencial da qualidade e quantidade de pesquisas agronômicas na China. O partidão vem investindo muito nas academias e Universidades de ciências agrícolas. Hoje a CAS (Chinese Academy of Science) ja é considerada globalmente uma das líderes em pesquisas e desenvolvimento genético no Agro.
Não vamos nos surpreender se a produção de café começar a aumentar por lá…

Boa semana a todos!

*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.