Mercado fechou sexta-feira em 248,75 centavos, contra sexta-feira retrasada em 228,95 centavos, base Setembro. Tecnicamente uma semana muito positiva com o mercado atingindo a maior alta em dois anos, indo acima dos 250 centavos . Os fundamentos macroeconômicos e os fundamentos de produção e consumo em nada se modificaram durante a semana. Nos últimos 12 meses o mercado de NY subiu quase 60%!
Nos fundamentos, o Vietnam exportou 11,5% a menos em Junho (mês a mês), o menor volume desde a safra 2010/2011, e 50,4% a menos no comparativo ano a ano. Cumulativamente no ano as exportações caíram 11,4% . O Brasil promete ser o Vietnam de amanha , porem vamos fechar o ano safra com o recorde histórico de exportação, com 47,3 milhões de sacas exportadas.
Os preços internos no Vietnam não cedem, a demanda para o final do ano continua presente mesmo com os diferenciais nas alturas. Os diferenciais no Brasil também começam a estreitar mais (mesmo com NY firme), os estoques certificados deram uma “estopada“ (basicamente sem mudança no último mês); e mesmo com quase 70% da safra colhida (segundo relatório Safras & Mercados) muitos exportadores começam a lutar para originar cafés finos e com peneiras altas.
Mercado de seca vem sorrateiro… com certeza parte da dúvida sobre o tamanho da safra brasileira já está fatorado nos preços atuais… pergunta é: o quanto não está?… a posição líquida dos Fundos ainda permite mais espaço para compras, mesmo porque a escada vai ficando íngreme, depois de um certo nível os vendidos pulam fora, pois não conseguem segurar as chamadas de margens (mesmo os grandes!). Com este retorno nos livros… as notícias têm que ser bem negativas para acionar o gatilho de vendas para os Fundos…
Relatórios de especialistas indicam mesmo com estes níveis de NY, o consumo deve manter um crescimento entre 1 a 1,25%. O consumo em casa e o consumo nas cafeterias tendem a se manter (não podemos esquecer que mesmo perto dos 3 centavos, café não é o maior, nem o segundo maior custo nas cafeterias la fora). Na gôndola a pancada é na veia… mas como já comentamos, milhões gastos para crescimento e manutenção de “market share” não serão jogados fora com fortes aumentos (digo isto na média… alguns não vão aguentar mesmo). Com o mercado entre 250 e 300 centavos, é possível sim manter um crescimento orgânico perto de 1% (em teoria), especialmente com o crescimento dos “novos” mercados do Oriente Médio e da Ásia.
O USDA envisiona um superávit de cerca de 7 milhões de sacas para este ciclo, e o ICO cerca de 1 milhão. As quedas de safra devido a seca no Vietnam e no Brasil, pode apagar os 7 milhões e tornar o número do ICO negativo em mais de 6 milhões. Mercados acima de 250 centavos, são mercados raros. Quanto realmente será a quebra nos maiores produtores? Qual realmente o efeito no consumo? O que já está, e o que não está precificado em mercado de 250 centavos NY??… o mercado continua invertido, os juros ainda não caíram, e os Bancos sabem muito bem que o cenário fica perigoso.
O fluxo de caixa necessário para manter maquina rodando do lado do exportador está ainda complicado. O mesmo para muitos torradores médios e pequenos. Para o produtor, não é somente a estratégia quando vender, e sim também para quem vender.
No macro, números de inflação melhores do que o mercado esperava, aliado ao já mais calmo mercado de trabalho, aumentaram em muito as apostas do mercado em mais de um corte nas taxas de juros no USA este ano (ainda bem em dúvida pessoal…).
Os juros das notas do tesoura caíram, a bolsa de NY rompeu os 40 mil pontos, e a BOVESPA já beirando os 30 mil pontos. Ou seja, para os Fundos, a manutenção do viés positivo em café frente a outras opções de investimento ficou fortificada com o aumento da possibilidade da queda dos juros.
Considerando ainda as tensões geopolíticas e agora a incerteza grande das eleições americanas, café na tulha que vai saindo aos poucos não é mal negócio.
O Dólar deu uma arrefecida com o “contigenciamento tupiniquim“ de 25 bilhões, mas já voltou a operar acima do 5,4, e mesmo sem os “day trade” do Presidente o cenário fiscal ainda é muito complicado. O risco Brasil se mantém em um patamar alto por causa do cenário fiscal, que mesmo com a queda dos juros lá fora, aqui podemos não ficar abaixo dos 10% na taxa básica no BC. Não esqueçamos a política monetária também pode ir para o vinagre dependendo da nova Presidência do BC em Janeiro. Em 1987, saude + educação + pensões funcionalismo + INSS eram 37% dos gastos primários do governo. Hoje está em 93%… tic tac tic tac… some a isto a instabilidade jurídica, criminalidade, corrupção, inflação, carga tributária… é a fórmula perfeita para fuga de capital, e não em investimento. Não é à toa a taxa de investimento é muito abaixo do necessário. Se não fosse o crescimento do Agro…
Mesmo nos níveis de 250 NY o mercado é positivo. Mas são águas pouco navegadas. Entendo com todo cenário de incerteza nos fundamentos e no macro a vontade do produtor é ficar agarrado no café. Talvez seja a coisa certa a fazer, mas ninguém tem a certeza. Tenhamos disciplina na escala de vendas.
Boa semana a todos!
*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.