O mercado fechou nesta sexta-feira em 245,45 centavos, contra um fechamento sexta-feira retrasada em 234,05 centavos. Tecnicamente um bom fechamento, perante um cenário que somente mostra uma condição desafiadora para a safra brasileira… e já há muitas preocupações com a nova florada.
A última forte onda de frio passou praticamente sem danos, porém já voltamos com altas temperaturas chegando e um déficit hídrico que se acumula. Somente lembrando a opinião dos consumidores da RR Consultoria e de vários outros consultores, em vários grupos de WhatsApp de café: Agosto/inicio de Setembro critico para recomposição hídrica.
Nenhuma grande mudança nos fundamentos. Novas estimativas mostrando números de redução da expectativa de safra brasileira. Os estoques certificados de lado.
As exportações brasileiras continuam em um ritmo muito bom, com os quase 3,8 milhões de sacas em Julho. O que continua sendo uma dor de cabeça e gargalo é a condição logística. Exportadores em Vitória, dependendo do destino, indicam que só tem navios para o final de Setembro.
Uma semana bem mais tranquila no macro.
O futuro novo Presidente do BC continuou com seu ciclo de entrevistas mostrando seriedade com as metas fiscais do governo e aderência as melhores práticas de política monetária. Claro, tudo bem ensaiado com o Planalto, que deve, nas próximas 2 ou 3 semanas, oficializar o nome de Galipolo para o BC (junto com outras diretorias). A estratégia é aprovar os nomes antes da eleições municipais. No demais nada de muito diferente no dia a dia turbulento entre os poderes, o que afeta diretamente várias medidas, ainda pendentes de serem votadas pelo Congresso. Porque cargas d’água o um Ministro do STF decide intervir nas emendas PIX/orçamento secreto, etc…?? antes de votações sobre reforma tributária, desoneração de folha, etc, etc…??
A tentativa é de devolver parte deste orçamento ao executivo e também reduzir o poder, principalmente de Lira, na eleição para o próximo Presidente da Câmara…. com esta ação, além de rubricar que as contas realmente nao fecham, abrem uma nova frente de batalha com o legislativo.
Para o mercado, tudo sinaliza incertezas.
Poderíamos agora estar em um período mais administrável, já que os últimos dados da economia mostram resiliência, com um crescimento do PIB projetado entre 2 a 2,5%. Os dados de inflação também mostram resiliência, com projeção de 4 a 4,5%… acima da meta, porém administrável. Nada maravilhoso, mas convenhamos, poderia ser pior.
Do lado norte, boas notícias na semana, para acalmar o mercado frente o corre corre da semana passada, depois que o carry trade de juros entre Yen e Dólar implodiu com o Yen valorizando quase 13% frente ao Dólar. Após alguma liquidação para cobrir os empréstimos em Yen, a Bolsa de valores americana voltou forte frente a nova rodada de dados da economia americana que repercutiram muito bem. Com as vendas do varejo crescendo três vezes mais do que o previsto (1% & 0,3%), e a queda do número de pedidos de auxílio desemprego, temos aí mais um impulso para uma quase certa queda de juros básicos nos USA no mês que vem, ficando a decisão de 0,25 ou 0,50 pontos.
Inflação também parece sob controle. A maioria do mercado acredita em 0,25 pontos. Ficamos no limbo agora, pois por lá o caminho dos juros parece já favas contadas… mas, por aqui????
O Dólar chegou a bater R$5,82 e agora se estabilizou perto dos R$5,50. Ainda acredito uma taxa recheada de incertezas do nosso lado…
Do lado da demanda, a Keurig Dr Pepper anunciou seu relatório do segundo semestre. A empresa, uma das maiores no USA em café (e também refrigerantes). KDP cresceu 3,5% com faturamento de $3,9 bilhões de dólares. O segmento café continua não tendo a mesma performance do segmento refrigerantes. As vendas caíram um pouco mais de 2% para US$1 bilhão, mesmo com uma redução de 2,9% em preços.
O foco em produtos de valor agregado (ie cápsulas) ainda não se recuperou de uma queda de vendas de 3% em 2023, recuperando apenas 0,2% no segundo trimestre deste ano. O relatório indica que a empresa vai continuar focando no segmento cápsula.
Falando de demanda, vamos falar um pouco sobre a China. Não discutimos o potencial de consumo (com 1 bilhão de habitantes e quase 500 mil na classe média), mas sim em que velocidade a economia do país vai acelerar para suportar o crescimento no consumo. Após a crise imobiliária, da qual a China ainda não saiu, o governo decidiu dar uma guinada e “investir” fortemente na produção industrial, focando em segmentos de tecnologia (mas não somente) como baterias, carros elétricos, semi condutores (ainda duas gerações atrás de Taiwan e os USA) etc…
Peking desbanca fácil Estados Unidos, EEUU e até os vizinhos Japão e Korea na forma de suporte para estas “novas“ indústrias. Estimativas de que os subsídios diretos e indiretos (empréstimos do setor bancário abaixo das taxas de mercado) equivalem a quase 4,9% do PIB Chinês.
Para ter uma ideia e equivalência:
● na Korea = 2%;
● na França = 0,6%;
● no Japão = 0,5%;
● nos Estados Unidos = 0,4%.
A estratégia de diversificação, visa tanto o mercado interno quanto a exportação. O problema é que o mercado interno continua estagnado, e as exportações cada vez mais encontram barreiras comerciais pela frente.
Até agora, 2024 não se mostrou animador, com a economia encontrando sérias dificuldades para atingir a meta de 5% de crescimento. Os recentes esforços do governo, inclusive com novo corte nas taxas de juros para estimular consumo e investimento até agora causaram pouco impacto.
A desacelaração da economia americana (com ou sem novas barreiras protecionistas), também não ajuda uma possível retomada. O receio de uma contínua queda de confiança aumentou, após dados divulgados mostrarem a primeira retração de empréstimos para a economia “real” em quase duas décadas. Não é supresa a Luckin Coffee estar ganhando mercado com seus preços altamente competitivos na ponta… sem subsídios, não vai durar muito…
O clima e a seca volta ao cenário e NY agora muda o direcional. O dólar com viés neutro!
Boa semana a todos!!
*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.