O mercado fechou esta sexta-feira em 257,35 centavos base Dezembro, contra um fechamento sexta-feira retrasada em 269,15 centavos.
Natural termos uma correção. Os fatores da volatilidade não mudaram. Chuvas esparsas, floradas abrindo, e previsões que ainda geram incertezas.
Tecnicamente o mercado continua segurando o suporte ao redor de 250 centavos, e observamos que duas vezes já, principalmente a indústria não correu acima dos 270 centavos.

Os Fundos continuam sentados em uma aposição comprada grande, e vem possivelmente com uma média muito boa (levando em consideração desde quando entraram “long” no mercado e não mais saíram, com as incertezas no Vietnam).
Mesmo com a chegada de chuvas mais frequentes e abertura de floradas (bem como a discussão de fixação da mesma), ainda temos a situação da safra atual.

Os embarques precisam cair em algum ponto de Dezembro para frente. É uma conta complicada, pois a safra 25/26 vai continuar sendo discutida… então você tem que ajustar a expectativa de ambas (se a existente já gera confusão imagine a 25/26), olhar os outros produtores globais e ajustar, se os preços atuais terão ou não algum efeito na demanda.

Temos visto muitas compras de cafés no mercado interno com alto grau de defeitos (cafés no mercado entre $1.200/$1.300 Reais), o que contra o mercado são compras com diferencias bem largos. Largos o suficiente para cobrir juros e o inverso…. Desde de quem tenham um mercado.

E assim será, se os embarques do Brasil cairem bruscamente. Como diziam os antigos: quando o melhor se vai, o melhor é o que sobra!
Agora… se não cairem os embarques, e o Vietnam surpreender (não precisa muito… só um pouco).

No macro, algumas tendências no meio de tantas incertezas (geopolíticas e econômicas), podem estar se consolidando. Pelo menos um certo viés. O número de novos postos de trabalho em Setembro surpreendeu nos EUA, com 254 mil novos postos criados, o que elevou a média do trimestre para 186 mil postos/mês. O número de desempregados volta para 4,1%.
Dissecando um pouco os números, a área de serviços ( hotéis, restaurantes, construção civil, etc) foi o grande gerador de novos postos.
A indústria perdeu 7 mil postos. E basicamente na indústria automotiva.
Outro dado interessante, é que no acumulado ano a ano, os imigrantes forneceram 1,4 milhões para a força de trabalho, enquanto que os nascidos no país perderam 600 mil postos. Basicamente porque eles tiveram um grande número da geração “baby boomer“ se aposentando.
Em termos da força de trabalho nativa americana entre 25 e 54 anos, nunca tiveram um nível tão alto de emprego. Ou seja, com o ganho salarial no ano a ano em + 4%, e a inflação caindo para cerca de 2,5%, os imigrantes realmente têm um efeito positivo para toda economia americana em geral, porém tudo isto deixa o FED um pouco mais na defensiva, e podemos supor que, dificilmente em Novembro, eles diminuam a taxa básica de juros em mais de 0,25 p.p.
Não que lá esteja tudo as mil maravilhas. A dívida pública americana chega a US$34 trilhões, mais de 120%/PIB. A diferença é que, por enquanto o mundo continua a financiar a dívida lá, pois acredita ser muito seguro o pagamento.
Não tem como o próximo governo (independente do resultado) não tomar ações para a redução de dívida. A última vez que a dívida por lá esteve zerada, foi entre 1998-2001.

Por aqui, a história é um pouco diferente. Apesar de estarmos mirando um PIB perto dos 2,5 ou 2,7%, e o aumento da força de trabalho ativa, a inflação continua caminhando para fechar acima dos 4,5%. Mais importante, a linguagem entre governo e mercado continua em desacordo.
Mesmo com a agência de classificação Moody melhorando o “rating“ brasileiro, a maioria no mercado continua achando que a agência olhou o “retrovisor“ e não o futuro.

A questão central continua sendo a falta de uma política fiscal consistente:

  1. O setor público atingiu em déficit primário de R$86,2 bilhões, de Janeiro a Agosto, ou 1,4% do PIB;
  2. A dívida total do governo atingiu 78,5% do PIB em Agosto;
  3. Os juros do déficit publico atingiu R$854,9 bilhões nos últimos 12 meses, ou 7,55% do PIB.

Ou seja, o aumento persistente do déficit, indica que o governo não está arrecadando o suficiente. Ou aumenta a carga tributária, ou precisa de muito mais de 2,5% de crescimento para suportar os investimento nos PAC’s da vida. Até lá precisa pegar “emprestado“… e aí os juros sobem.
Ao contrário dos EUA, a nossa não tem tanto apetite de “financiadores“, a não ser que os juros compensem o risco. Mesmo “modus operandi” de governos anteriores do PT, com a diferença que na época tínhamos um “boom” de commodities com a China crescendo acima de 10% ao ano, e déficit/PIB muito menor (gostem ou não herança do FHC).

O que afeta o produtor??… juntando o cenário acima ao risco geopolítico de guerra, podemos começar a criar um viés, em que a chance do Dólar eventualmente chegar a R$6 antes de voltar a R$5 começa a existir.
Isto de certa forma proteje o valor em Real no curto prazo (caso a NY corrija para baixo), porém a longo prazo começará a criar uma pressão altista nos insumos.
Trocas via insumos pode ser uma opção… com a atenção que as empresas já não estejam fatorando estes riscos, e embutindo juros mais altos nas trocas.
Para o produtor, dolarizar parte das necessidades de insumos como hedge/proteção, pode ainda ser uma boa ideia.

Observamos que os valores em Reais estancaram ali nos $1.500/$1.600 Reais mesmo com a puxada de NY. Possivelmente, uma mistura de falta de fluxo de caixa, o trade buscando largar os diferenciais para equilibrar o risco de mercado, a reticência da indústria acima deste níveis…
Para o produtor que de certa forma já vendeu boa parte do que precisava no curto e médio prazo, e agora observa oportunidades para a safra que vem em volumes pequenos, o risco agora é muito mais de não perder oportunidades nas puxadas de mercado.
No momento, o ônus de analisar todos os pontos está com a indústria.

Como produtor, se você olhar a sua lavoura, as lavouras ao seu redor, as lavouras de conhecidos em outras regiões, e friamente entender que realmente a quebra foi de 15/20/25%… paciência pode ter seus benefícios!

Boa semana a todos!
Joseph Reiner