COMENTÁRIO SEMANAL – CAFÉ
Joseph Reiner, em 27/10/2024.
O mercado fechou esta ultima sexta-feira em 248,40 centavos, contra um fechamento sexta-feira retrasada em 257,30 centavos. Um recuo natural frente a continua normalização das chuvas em grande parte das regiões cafeeiras.
Pouca variação nos estoques certificados, com 843 mil sacas certificadas e pouco mais de 100 mil esperando classificação. Base 22 de Outubro os Fundos liquidaram cerca de 5% das posições compradas, o que também não é nenhuma surpresa.
Tecnicamente não foi uma semana tão ruim quanto parece. Existe uma importante área de suporte entre 237 e 250 centavos, bem como ainda perduram as incertezas sobre esta e a próxima safra.
Observamos esta semana fotos maravilhosas de floradas por todo o parque cafeeiro, porém existe um volume significativo de lavouras que não possuem massa foliar suficiente para segurar a florada.
Não desejo estar na pele dos colegas profissionais que têm o trabalho de fazer estimativas de safra para a safra 25/26. Tudo indica para uma grande variabilidade entre lavouras, dentro de uma mesma região.
Foi uma semana relativamente tranquila em termos de negócios no interior e demanda de exportação. Talvez a principal notícia seja o relatório de mercado da Starbucks, que mostrou uma nova queda em suas vendas globais. Foram 7% de queda no Julho – Setembro a/a, comparativo.
No mercado americano a queda foi de 6%, e na China de 14%.
Apesar do relatório indicar certo impacto de consumo, na verdade hoje em dia a cadeia sofre uma forte competição de novas cadeias… competição de guerra de preços na China, bem como efeito de suas próprias estratégias de vendas.
O novo CEO promete novas estratégias, mas 2024 deverá mostrar crescimento orgânico zero da marca.
No macro, eleições americanas!
O que importa?… o Dólar, fator importante na rentabilidade do produtor de café. Dia 5 de novembro os americanos irão as urnas escolher entre Donald Trump e Kamala Harris. Ambos entram na reta final basicamente empatados, porém dentro do sistema de colégio eleitoral de eleição, basta Trump manter a vantagem nos Estados da Geórgia e Carolina do Norte, e virar na Pennsylvania, que ele será o próximo Presidente.
Entre retórica de campanha e realidade pós eleição, muda coisa muda, porém com Trump tudo é possível. E isto inclui suas “agressivas“ políticas de corte de impostos e elevação de tarifas de importação que, se levadas a cabo, trarão forte impacto.
Parte disto já observamos na elevação das taxas dos títulos do governo americano, passando esta semana dos 4,2%. Parte disto é eleição… e parte não é.
No fim do 1° semestre, investidores estrangeiros detiam $8,2 trilhões de dólares em títulos do tesouro americano… crescimento de 7,3% a/a. Não foi só títulos do governo. Houve um crescimento de 9,8% nos títulos de empresas privadas, e crescimento de 23% em investimento em ativos. Todos de investimento estrangeiro.
Independente do vencedor na eleição, existe uma forte tendência de que a resiliência da economia americana irá se manter, e que o FED não vai conseguir manter a taxa neutra de juros na faixa de 2% (talvez muito mais perto dos 3,5%). Se torna uma questão comparativa onde estacionar seu dinheiro: EUA, China, EEUU, ou algum país emergente.
No momento, o fluxo indica um fortalecimento do Dólar.
Internamente, como é possível um sentimento amargo na economia, se temos um crescimento do PIB acima do esperado, ganhos salariais e uma baixa taxa de desemprego?? Na cabeça do investidor, o bom momento da economia pode ser passageiro. A dívida pública brasileira, indexada à SELIC, se aproxima de 50% do total de títulos públicos emitidos. Estes títulos, pós fixados (chamados LFTs), são considerados um papel de crise. Em 2014 eles eram menos de 20% do total de títulos. Hoje em dia, cada vez que o BC sobe o juros, metade da nossa dívida fica mais cara. O total de títulos em LFTs está em $3,2 trilhões de reais. Se o BC aumentar o juros em 1% em 2024, serão R$32 bilhões de juros a pagar a mais.
Para se ter uma ideia comparativa, o investimento previsto na área de transportes no Brasil é de $24 bilhões de reais.
Só em Agosto foram emitidos R$7 trilhões em títulos. Na cabeça dos investidores (locais e estrangeiros), o crescimento do PIB vai acontecer à uma taxa muito menor do que a expansão da dívida. Logo, como mostrou o FMI, a relação dívida/PIB vai piorar. E isso desorganiza a economia.
A saída para essa situação é:
1) aumento de impostos;
2) corte de gastos ou…
3) aumento da inflação.
O mercado está se protegendo do terceiro cenário, o da inflação, e sabe como o governo tem se dedicado a ampliar a arrecadação e como tem tido dificuldades com o cortes de gastos.
Estruturalmente, as dúvidas sobre ambas as safras continuam. Sobre a atual, necessitamos da queda de embarques para corroborar a quebra. Não deve acontecer talvez antes do início de 2025, quando ainda temos 2 milhões de sacas em atraso para embarcar.
Sobre a 25/26, o tempo começa a correr agora,
Qual foi o tamanho real da quebra? E sobre qual potencial inicial?… não podemos descartar uma nova tentativa no 275 centavos caso o cenário de duvida fique mais aparente no sentido de quebras e consequente aperto maior da oferta global.
Posso estar muito enganado, mas ainda não vejo informações seguras para um derretimento do mercado.
E continuo acreditando que o Dólar vai manter as cotações em Real (e cuidado com os preços de insumos), porém se a pressão altista do Dólar for muito grande, NY não vai resistir.
Se a dose for muito forte, o benefício vai virar um problema. Mas vamos esperar a eleição!
Boa semana à todos!
Joseph Reiner