Uma indústria a céu aberto!
Agricultura muito mais do que qualquer outro negocio esta à mercê das ações da natureza, e esta semana foi uma boa prova disto. Já se iam muitos anos sem uma geada desta magnitude. Talvez a preocupação com a seca já era tanta, e também as previsões não eram unânimes, que tenho a impressão que a surpresa com a extensão dos danos foi generalizada . Qual é o tamanho do prejuízo? Todos viram as mesmas fotos, vídeos, e andaram em suas próprias lavouras e de vizinhos. Muito difícil prever no momento, mesmo porque o efeito não se reflete em apenas 1 safra… o efeito se estende no mínimo para duas/três safras (podas, recepas, esqueletamentos, rebrotas, replantios, erradicações, etc…etc).
“Difícil quantificar os danos, dado a extensão da cafeicultura brasileira. Estamos buscando o máximo de informações rodando o campo por esses dias, mas podemos dizer que foi mais uma geada histórica e que não seguiu “padrões”. Atingiu regiões altas, médias e baixas, porém em diferentes condições. Talvez na próxima semana possamos arriscar a falar em números, mas é uma perda expressiva” disse Régis Ricco, diretor da RR Consultoria, com sede em Alfenas.
O que é certo é que, em termos de Arábica, com certeza vamos estender o déficit de produção & consumo. Como sabemos que o “número“ sempre fecha, e com grande probabilidade após esta geada não vai aparecer mais café do que imaginávamos para “acertar“ a conta no Arábica, então sobra somente uma “destruição“ de demanda para equilibrar oferta e procura… ou que o dano não seja tão grande que um possível aumento de produção de robustas em outras origens possa compensar uma mudança de blends (pouco provável). Avaliar em que nível valores de café começam a destruir demanda é uma tarefa complexa. Países tem condições econômicas (e poder de compra) diferentes, como também padrões de consumo diversos, ainda mais diversos agora saindo de efeitos da pandemia em estágios diferentes. A situação de credito/financeira também vai influenciar decisões dos torradores de quando vão aumentar preços e qual a magnitude (em uma decisão de manter ou aumentar market share & redução de margem liquida) . Tudo isto contra a conhecida inelasticidade do consumo de café & aumento de preços. Desenhar metas de objetivos de preços agora não é uma tarefa simples para nenhum participante de mercado.
Em termos de NY realmente o mercado necessita quantificar a extensão dos danos. Minha opinião o mercado sinalizará uma preocupação real se conseguir se manter acima dos 2.00 cts/lb. Importante também observarmos o spread entre meses se mantendo firme, já que um bom volume dos cafés certificados em NY são de origem Brasil. Mesmo que o mercado não consiga se manter no curto prazo e feche o gap perto de 180,não esperem a estrutura de preços internas acompanhar.
A visita da Ministra a Minas Gerais logo após a geada foi muito positiva. Mostra preocupação com o ocorrido como também sinaliza que estudos para um auxílio aos produtores afetados não demorem a serem realizados. Como produtores afetados necessitam agora refazer as contas do fluxo de caixa para as próximas três safras, a possibilidade de novos recursos para o setor é outro fator que vai fazer o produtor esperar antes de realizar novas vendas. Aliado a isto temos os contratos de café entrega futura para 2022/202. Tenho certeza que a grande maioria quer honrar seus contratos, mas estão se perguntando como… Em tendo perdido muito da safra de 2022 (que seria maior que esta, para grande maioria dos produtores), fica a preocupação de como chegar até 2023 com o colhido neste ano.
Para a safra atual não podemos esquecer que cerca de 40% da safra ainda estavam em fase de colheita … O que acontecerá com a qualidade, já que nem todos os contratos futuros deste ano foram entregues???
Em termos gerais única certeza é que podemos esperar uma continua volatilidade neste mercado. Aos produtores que não foram afetados pela geada e possuem irrigação, este vai ser um daqueles períodos para realmente acertar o caixa. Ao resto de nós, a luta continua!!
Termino nossa conversa semanal com um adeus. Muito mais triste do que qualquer noticia de clima que tivemos esta semana, foi a passagem do nosso amigo Roberto Ticoulat. Durante anos atuando no mercado de café solúvel, como produtor de café, na SRB, em Conselhos de grandes empresas, Roberto sempre foi uma pessoa com opiniões firmes (às vezes polêmicas), mas sempre um amigo disposto a ajudar. Que Deus o tenha e conforte a família!
Boa semana a todos!
Joseph Junqueira de M. Reiner*
*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.
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