O último relatório que escrevi foi a vinte centavos atras! Nesta sexta-feira o mercado fechou base Setembro, à 199,80 centavos, contra o fechamento da sexta-feira retrasada à 220,45 centavos… e sexta-feira ainda foi um mercado de leve recuperação, pois quinta-feira atingimos os níveis de 195 centavos.

Muitos relatórios indicam, e existe uma razoável pressão nos USA, para que as ações necessárias ao combate da inflação (índices jamais vistos nos últimos 40 anos) sejam tomadas. Um aumento de 1,0 ponto percentual (pouco provável) não está descartado, apesar que 0,75 ponto já estava absolutamente fatorado no mercado, para o final desse mês… e ainda vindo com o viés de mais aumentos.
O nível de emprego ainda bastante alto, e índices de atividade econômica também bons, podem levar o FED ao inesperado. Em teoria, nada bom para um retorno mais acentuado de fundos para o mercado de Café… pelo menos no curto prazo.

Aliado a isto, novas restrições devido a Covid na China e percepção de que a economia europeia está no ralo (vide a relação Dólar x Euro), leva o mercado a continuar apostando num mercado mais recessivo para o segundo semestre.

Nas últimas semanas, quase todas as commodities (desde a energia a grãos) vêm sofrendo quedas com a fuga de fundos e specs para ativos de maior segurança, linkados ao Dólar (bonds municipais americanos tem observado grande procura). O Café não ficou imune, o que já vinha acontecendo com a redução dos contratos em aberto… teve somente um empurrão final na última quinta-feira, com um grande volume.

No âmbito do mercado físico do Café, os certificados continuam sendo extraídos dia a dia, já chegando a 750 mil sacas (com quase 50% de origem Hondurenha). O que resta de safra de América Central, com NY abaixo de 2 centavos, com certeza não serão enviados para grading… e os cafés da Colômbia então, nem pensar. O Mercado paga muito melhor… sobra o Brasil.

Segundo vários reports, a colheita brasileira já está feita em 50-60%… e cadê o café??… fora isto, qual o tempo de preparo e envio para grading contra o setembro??? Quem tem posições vendidas em NYC contra o setembro, deve estar fazendo as contas…

O Brasil embarcou em Junho 2,79 milhões de sacas, sendo 2,65 milhões Arábica. Para o Arábica, um crescimento de 11,5% ano a ano. E no geral, incluindo Conilon + industrializado, 3,144 milhões de sacas, um crescimento 2,1% ano a ano. Os estoques nos portos americanos (GCA) tiveram um leve aumento de 40 e poucas mil sacas.

Novos relatórios climáticos, praticamente descartando qualquer frente fria perigosa em Julho, e indicando que as chuvas podem voltar em Agosto, também tira pressão do mercado. Podemos até ter um Agosto e Setembro, em média mais frio… mais ainda dificil é prever se teremos alguma intensidade particularmente em Agosto. Ou seja, em termos de clima, no curto prazo nenhuma indicação de maior volatilidade.

Com o êxodo dos fundos de longo prazo, o mercado fica muito mais suscetível a volatilidade no curto prazo. O macro está pesando muito mais que os fudamentos do café para eles no momento… pelo menos até os próximos passos do FED. Volto a citar no curto prazo, pois a mesma pressão que os combustíveis, grãos e alguns softs estão sofrendo, pode ser o alívio necessário da pressão inflacionária para o final do ano… e aí os fundamentos podem voltar a ter a predominância para “managed money“. Até lá vamos ter uma ideia melhor da verdade sobre a safra de Arábica do Brasil.

Para o trade, eu aceito sugestões. Mercado invertido, origens caríssimas, câmbio muito volátil, juros subindo.
Para o torrador mais 20 centavos de Nirvana na última semana. Eles estão usufruindo ao máximo do uso de Robusta com a arbitragem & Arábica nos níveis atuais.

Para os que não estão saindo em suas programadas férias de Julho e Agosto, devem estar pensando que abaixo de 2 centavos deveriam estar alongando suas posições, já que, com o cenário invertido atual, o custo forward é zero.

Para o trade cobrir as necessidades de longo prazo dos torradores, o cenário fica bem dificil, pois por algum tempo, a exposição vai ser bem grande (grande demais para vários CFOs) pois não vão conseguir carregar estoques, e cobrir no FOB será ainda um feito maior (pelo menos exportadores brasileiros terão muito pouco apetite no momento para isto).
Uma equação muito mais simples para os torradores é simplesmente comprar NY e ir com tempo cobrindo o físico. Principalmente após meses pagando acima de 220/230 centavos… Em que ponto começaremos a ver o torrador voltando com mais apetite a NYC??…

E o produtor… vários negócios ainda saíram na faixa de $1.200/1.250 reais na sexta feira. Considerando a derrocada de NYC, ainda não é uma catástrofe total. Ainda acho que os fundamentos são amigos, mas a volatilidade extra-café é muito grande. Não quero ser repetitivo, mas a próxima florada é absolutamente chave para um grande movimento. Os 20 centavos da semana passada pode ser apenas uma antecipação indireta de um movimento maior, caso tenhamos uma ótima florada (e com um bom ciclo de chuvas).

Do outro lado da moeda, não existe margem para erro na produção mundial de Arabica. Não existem mais grandes estoques reguladores de Arábica, e muita coisa que estava no mato esperando preços menores está saindo agora.
Estamos talvez no meio do caminho. Quem vai perder o bonde desta vez???

Boa semana a todos!

Joseph Junqueira de M. Reiner*

*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.