Nessa semana o Arábica abriu a segunda-feira a 284,00 c/lb e encerrou na sexta-feira a 280,75 c/lb. O Robusta saiu de 3.604 USD/ton e fechou a 3.624 USD/ton.
Oscilação curta no fechamento, mas uma amplitude diária em 10 cents/lb, mantendo o ambiente de volatilidade alta diária elevada que vem marcando os anos recentes.

No mercado físico, segundo o CEPEA, o Arábica variou aproximadamente entre R$ 1.780,00 e R$ 1.800,00 por saca, enquanto o Robusta oscilou entre R$ 1.030,00 e R$ 1.055,00. Apesar da aparente estabilidade semanal, a formação de preço segue pressionando os diferenciais em um movimento que se intensificou em 2026.

No câmbio, o dólar voltou a recuar. A moeda norte-americana abriu a semana a R$ 5,17 e encerrou próxima de R$ 5,13. O fluxo externo, combinado com expectativa de política monetária nos Estados Unidos e ruídos fiscais domésticos, segue influenciando o comportamento do Real.
Para o exportador, cada centavo no dólar altera a margem final da operação alterando os diferenciais.
Para o produtor, dólar caindo é o valor por saca desvalorizando.

No cenário internacional, a escalada de tensões entre Irã e Estados Unidos adiciona uma nova camada de incerteza ao mercado global. Conflitos no Oriente Médio impactam diretamente o preço do petróleo, o custo logístico e a percepção de risco sistêmico e em ambientes assim a volatilidade aumenta consideravelmente, vamos acompanhar essa semana a abertura do mercado e o fluxo durante a semana. Companhias marítimas já reportaram, no momento em que escrevo esse texto, desvio de rotas para segurança de seus funcionários e navios, implicando diretamente no fluxo de entrega de cafés que já se encontram muito apertados como escrevi na semana passada.

De acordo com o último COT (relatório das posições dos agentes da cadeia do café em NY), mostram os fundos na menor posição líquida desde novembro de 2023, com 16.856 contratos comprados.

A lateralização do preço na tela esconde um ajuste mais profundo, o diferencial. Para o exportador a questão central não é para onde vai a Bolsa, nem o preço em si, mas qual o comportamento do diferencial do Arábica e do Robusta.

Para quem não conhece o que é diferencial, ele é um número acordado entre o comprador e o vendedor que depende de fatores como preparo, qualidade, origem, volume, tela de vencimento, oferta e demanda, etc., podendo ser positivo ou negativo.
O próprio mercado está constantemente atualizando e regulando o diferencial todo dia, não existe uma referência única ou base em lugar algum. Ele muda constantemente de acordo com negociações independentes e livres entre empresas.

O mercado hoje convive com um aperto evidente no curto prazo com restrição de oferta e projeções de superávit no horizonte próximo.
No físico imediato, diferenciais reagindo e fluxo mais seletivo indicam oferta menos disponível. Ao mesmo tempo, relatórios e estimativas apontam para uma safra 26 potencialmente volumosa e recomposição de estoques globais.
Esse descompasso entre o presente apertado e o futuro projetado, cria um abismo de percepção e no diferencial, e é nesse intervalo que o risco se concentra.

No FOB hoje temos um café 17/18 Fine Cup a +50 para embarque imediato e a -7 para embarque em setembro, uma diferença de aproximadamente 75 USD por saca. Isso cria uma barreira enorme para o exportador administrar.
Comprar o café e pôr no inventário para arriscar uma venda? Vender primeiro e arriscar uma compra? E se o diferencial cair? E se o diferencial subir? Risco de rolagem em mercado invertido?

Tenho falado com muitos exportadores e a situação não é nada favorável para o mercado atual, riscos altos e muita tensão para montar operações, trazem aversão a novas operações. Vendas antigas que tinham embarques programados para março/26 já se tornaram uma grande dor de cabeça, e prejuízo, para os exportadores.

Quando esse enorme abismo em diferencial entre safra 25 e 26 vai acabar? Março? Abril? Maio? Nunca? Muitos exportadores retraídos apenas observando o mercado, fazendo médias, compensando o prejuízo atual com lucros do semestre passado, ou simplesmente amargando prejuízos de cafés vendidos no passado a -10/-15 no FOB para entregas por agora.

Abaixo um gráfico de como estão os diferenciais da bica corrida (CEPEA x KC) em relação a Bolsa, note que após Robusta e Arábica tocarem recordes negativos em meados de setembro de 2025, no pico de oferta de safra brasileira, o movimento de alta do diferencial começou e não parou de subir até hoje:

Lembrando que o fluxo que está empurrando essa força compradora não é infinito, embarques vão saindo, os fluxos de compra vão diminuindo e o mercado se autorregula em um novo diferencial de uma semana para outra sem aviso.
Vejam esse histórico de diferencial FOB para embarques imediatos da minha empresa MCT, desde quando comecei em 2020:

O fluxo do diferencial é um pouco mais complexo do que eu o apresento aqui, existem diferentes vencimentos, contratos futuros, dólar futuro, etc, é uma equação mais elaborada, mais complexa, tem resíduos que entram na conta, outras peneiras, e etc.
O cenário muda também de um exportador para outro, mas no geral a lógica é a mesma para todos, podem também ter exportadores com estoque comprado em diferenciais extremamente favoráveis para a empresa e estão se dando muito bem nesse momento vendendo com diferenciais caros.
O texto é só um guia de como o mercado está se comportando no momento e o risco implícito para uns e explícitos para outro.

Qual o ponto de inflexão? Essa resposta vale muito dinheiro e ninguém sabe, saber o momento em que os diferenciais irão tocar o topo e voltar para uma “normalidade conhecida”.

Enquanto isso, vamos administrando o risco das operações, com um pé atrás.
Quem vendeu diferencial negativo está sentindo, quem precisa comprar está pagando o preço, quem tinha café comprado em diferenciais menores se deu bem, quem precisa dar liquidez ao produtor assume o risco, e quem está zerado observa.

Para o exportador tanto faz preço alto ou baixo, o problema é o risco quando muda de lugar, se vira contra você e você está posicionado.

Não é o dia em que a bolsa rompe um suporte ou quebra uma resistência, não é quando o dólar sobe ou cai. O ponto de inflexão será o momento em que o diferencial parar de subir e acalmar a tensão do risco.

Nem excessivamente descontado, nem artificialmente esticado, apenas equilibrado.

O mercado sempre encontra um novo ponto de equilíbrio, essa é uma lei da oferta e demanda. A dúvida não é se isso vai acontecer, mas quando e em que nível. E até que o diferencial se estabilize, a prioridade deixa de ser margem e passa a ser gestão de risco com disciplina e leitura constante de fluxo, e muito dinheiro para carregar.

Boa semana a todos,

Gustavo Matias
@matiascoffeetrading

Não é recomendação de compra ou venda.
*Teremos curso de Precificação e Exportação de Café no final de Março
*Teremos curso de Precificação e Bolsa também no final de Março
*Temos o curso de Hedges e Operações Estruturadas, a agendar, consulte
*Matricule-se pelo 16 99291-2005, diretamente comigo
*Texto revisado gramaticalmente pelo ChatGPT