Nessa semana a Bolsa devolveu toda a alta da semana anterior, Arábica fechou a 285,70 c/lb e Robusta a 3.591 USD/Ton.
De acordo com CEPEA, o Arábica saiu de R$ 1.901,38 no início da semana para fechar a sexta-feira em R$ 1.806,48, uma queda de -R$ 94,90 por saca. E o Robusta caiu de R$ 1.092,10 para R$ 1.042,95, queda de -R$ 49,15.
Apesar dos dados da CEPEA indicarem esses preços, as ofertas no físico para Arábica estão mais próximas de R$ 1.850,00 e do Robusta por volta de R$ 970,00.
Dólar não colaborou muito para o preço do café subir, caiu 5 centavos essa semana e fechou em R$ 5,17. Notícias geopolíticas mexem com câmbio e commodities, tensões envolvendo guerras ou tarifas criam volatilidade adicional, além do fundamento básico de oferta e demanda.
Os estoques nos países consumidores estão nos níveis mais baixos da história recente, qualquer evento pode provocar nova direção nos preços. Estoque de cafés certificados por volta de 459 mil sacas, portos europeus abaixo da média histórica, indústrias operando no limite da cobertura. Tenso, não é? Mas vamos expandir a visão:
Quando falamos em estoque, talvez olhemos de forma muito superficial, fotos de armazéns vazios, relatórios de portos sem café, aquela foto de lavoura sem carga, cafés certificados na bolsa ou um bate papo com aquele cliente mais próximo.
E o estoque invisível? O mundo produz algo próximo de 177 milhões de sacas por ano e, desse volume, 55 milhões de sacas são consumidas nos próprios países produtores, o restante vira um fluxo global de exportações que somam por volta de 122 milhões de sacas anualmente exportadas que divididas por 12 meses teríamos um fluxo médio de 10 milhões de sacas embarcadas por mês nos portos do mundo todo.
Se considerarmos um tempo de trânsito marítimo médio global de aproximadamente 30 dias entre origem e destino, isso significa que 10 milhões de sacas estão no mar nesse momento.
Esse volume não aparece nos relatórios de estoque certificado e muito menos nas demais camadas do sistema, que simplesmente não são capturadas por nenhum relatório. Não aparece nos relatórios de estoque certificado, não aparece nos boletins que pregam o caos com baixos estoques reportados. Mas o café existe e está vendido, contratado e navegando, só não chegou em lugar nenhum ainda. Esse é o primeiro nível do estoque invisível.
E existe um segundo nível ainda mais amplo, o café não sai do navio direto para a xícara. Após o desembarque há desembaraço aduaneiro, transporte até armazéns, envio para torrefação, torra, empacotamento, distribuição para redes de varejo, abastecimento de supermercados, centros de distribuição e cafeterias. Entre o embarque na origem e o café estar disponível na prateleira podem se passar 90 dias, dependendo da rota e da estrutura logística. O café não para, ele só vai trocando de lugar.
Quando alguém afirma que não há café disponível ou que falta café no mundo, normalmente está olhando apenas para o estoque parado em um elo específico da cadeia, para a própria região, ou visitando aquele armazém vazio.
Fiz uma pesquisa simples: apenas nos EUA existem aproximadamente 390 mil mercados e 516 mil pontos de Food Service (cafeterias, etc). Se cada uma dessas lojas mantiver alguns poucos quilos em estoque, estamos falando facilmente de algo na ordem de 2 milhões de sacas já torradas nas prateleiras dos EUA, mais ou menos 10% do consumo deles estocado na prateleira.
O sistema ainda é muito maior que isso e isso não significa que não exista risco, é que o risco é mais complexo.
Hoje o que vemos é uma cadeia comprimida financeiramente, juros elevados nos países consumidores reduziram o apetite por carregar estoque deixando-o nas mãos dos produtores. Quanto maior o preço da saca, maior o capital necessário para financiar inventário, a indústria ajustou o pipeline e passou a comprar de forma mais reativa, reduzindo cobertura, o famoso “compra da mão para a boca”.
Do outro lado, produtores nas origens retêm café esperando valorização adicional, exportadores reduzem compras quando diferenciais ficam caros para suas operações e evitam o risco. O resultado é uma compressão de estoque ao longo da cadeia, não necessariamente falta do produto físico no mundo.
Se o fluxo global mensal de exportações gira em torno de 10 milhões de sacas e esse mesmo volume está constantemente se deslocando pelo sistema, o mercado continua operando mas a margem de erro ficou bem pequena.
Outro estoque invisível é o interno nos países produtores. Usando o Brasil como exemplo, considerando uma safra estimada em 63 milhões de sacas (USDA), no ano safra 25/26, com aproximadamente 24,8 milhões já exportadas e cerca de 14 milhões consumidas internamente, existe um saldo teórico relevante de 24,2 milhões de sacas ainda não totalmente absorvido. Esse número não representa automaticamente disponibilidade imediata, mas mostra que o estoque nas origens é uma incógnita maior ainda do que imaginamos.
Parte pode estar em mãos de produtores, já vendida aguardando embarque ou retida em estoque comercial. Não há transparência absoluta e um número 100% confiável.
O mercado se move exatamente entre o visível e o invisível, é o fluxo em movimento e é imprescindível esse fluxo seja contínuo nesse momento.
A amplitude do mercado de café é enorme, vale a pena observar a fundo.
Boa semana a todos,
Gustavo Matias
@matiascoffeetrading
*Não é recomendação de compra ou venda.
*Teremos curso de Precificação e Exportação de Café no final de Março
*Temos o curso de Hedges e Operações Estruturadas, a agendar, consulte
*Matricule-se pelo 16 99291-2005, diretamente comigo