Há cinco semanas que o preço do Arábica oscila entre aproximadamente 277 e 305 c/lb, e nessa semana não foi diferente, abriu a 296,95 e fechou em 285,15 c/lb. O Robusta também está há mais de cinco semanas oscilando entre 3.520 e 3.820 USD/Ton, na sexta-feira fechou um pouco abaixo da faixa anterior, em 3.455 USD/Ton.

O mercado financeiro global operou sob forte influência das tensões geopolíticas no Oriente Médio, após a escalada do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. O aumento do risco no Golfo Pérsico, incluindo ameaças ao fluxo de petróleo pelo Estreito de Hormuz, elevou os preços da energia e reforçou a demanda global por ativos considerados seguros, como o dólar americano. Esse movimento fez o dólar subir, na segunda-feira abriu a R$ 5,28 e chegou a cair 12 centavos no mesmo dia com rumores sobre o fim do conflito, durante a semana a tensão da guerra voltou e o dólar fechou a sexta-feira em R$ 5,33, colaborando para o preço do café em Reais.

O COT de sexta-feira mostrou que os fundos permanecem com posição líquida positiva, em +18.663 contratos, observar esse movimento é importante porque há um grande fluxo financeiro nessas operações.

Em minhas andanças pelo Brasil, converso com muita gente da cadeia do café. Nessa semana me despertou uma curiosidade:
Quantos por cento da safra 2026 está travada com cooperativas e exportadores?

Em participação em um podcast eu disse que estaria entre 30/35% e baseei esse número em conversas com produtores amigos, negócios, etc. Mas resolvi fazer uma pesquisa um pouco mais abrangente, a nível Brasil. Por confidencialidade e ética não vou divulgar nomes, mas falei com pessoas/empresas importantes do setor.

Cheguei a um número interessante na minha planilha: Próximo de 18%.

Eu me faço algumas perguntas:

  • Os contratos em anos anteriores, tratados a R$ 500,00, R$ 700,00 ou R$ 1.200,00, traumatizaram tanto assim os produtores?
  • Por que houve tanta coragem para fixar café a preços bem menores do que os que o mercado ofereceu recentemente, R$ 1.630,00/R$ 2.000,00/R$ 2.200,00?
  • O custo de produção do café é realmente tão baixo que permite assumir esse nível de risco?
  • Qual foi a percepção do produtor em não proteger o preço a níveis de recordes históricos?
  • O Brasil tem mais de 300 mil produtores, cerca de 70% são pequenos produtores registrados com até 20 hectares. Será que eles não têm acesso a ferramentas de trava? Cooperativas? Exportadores?
  • A paridade de troca teve médias em anos recentes próximas de 4 sacas por tonelada. Houve oportunidades perto de 0,8 sc/ton e hoje essa relação está por volta de 1,7 sc/ton. Será que não foi e ainda não é interessante?
  • Cafés acima de R$ 2.000,00 era um sonho inimaginável até pouquíssimo tempo que só cafés de altíssimo padrão de qualidade e vencedores de concurso recebiam. Qual foi a retração na mente do produtor em achar que R$ 2.000,00 não seria um preço bom o suficiente?
  • O crédito para travas foi reduzido devido ao alto volume de contratos passados não entregues?
  • Carregar estoque com futuro mais barato (invertido) é uma boa opção?

São tantas perguntas que me faço! Sei que muitos produtores consideram o café a moeda deles. Como se fosse um Tesouro Direto aplicado na tulha, ou na árvore ainda no caso da safra vindoura.
Mas é uma aplicação de altíssimo risco, volatilidade de R$ 200,00 para cima ou para baixo em uma semana, a cada 1.000 sacas, R$ 200.000,00 a mais ou a menos na receita. É muita adrenalina digna dos maiores especuladores swing traders.

Há quem diga que somente quem produz café entende essa equação, e que quem segurou café nas safras anteriores recentes acertou na loteria, é quase um jogo mesmo. Pode até ser verdade, mas continuar exposto ao preço esperando que o passado se repita continua sendo especulação.

Citei isso em outro texto meu aqui no site, o produtor por natureza da atividade já nasce comprado, ele é um especulador enquanto não fizer nenhuma trava de venda. Por isso sempre existe a esperança de que o preço continue subindo.

Quando estruturamos operações de compra e venda de café, o primeiro pensamento é: Como vou proteger o preço? Quais são os riscos?
Exportadoras e cooperativas geralmente têm políticas de hedge diferentes umas das outras, mas a lógica é a mesma: evitar especulação e permanecer o mais próximo possível de 100% protegido para não sofrer com a variação do preço do café ou do dólar.

Somando o café ainda em estoque da safra 2025 e previsões de uma safra de 2026 próxima de 70 milhões de sacas, manter o saldo da safra 25 exposta e aproximadamente 82% da produção que está chegando sem proteções de preços é saudável? Tem tanta gordura assim para queimar?
A retenção do café contra o seu fluxo sazonal natural só adia a oferta e represa volume. Qual a estratégia quando o estoque superar a demanda, sem nenhum hedge, estrutura, trava, opção, nada? Simplesmente vender no preço do dia e torcer para dar lucro?

A maioria dos produtores já tem uma ideia muito próxima do volume que irá colher em 2026. As chuvas têm sido abundantes, o grão apresenta casca fina e tudo indica boa granação e peso na renda do café.

Existem infinitas possibilidades para onde o preço irá. Se você perguntar para um produtor por qual preço ele venderá seu café, ele não sabe. Porque na verdade ninguém sabe o preço de amanhã.

Fiz uma análise de dados de volumes de 2026 e 2027 e tenho uma percepção visual de que o produtor negocia café quando o preço cai. Enquanto o mercado sobe ele não vê motivos para vender na alta?
No gráfico abaixo você vai ver contratos futuros para 2026 e 2027, repare que o volume de negociações diárias (linha verde) aumenta quando o preço cai. Note também as barras laranja (2026) e verde (2027), são os volumes de contratos posicionados, subiram quando o preço da tela caiu (linha azul pontilhada).

O mercado é movido por oportunidades, bons negócios e previsibilidade. Quem especula pode acertar ou pode errar, só sabemos o de hoje e o resto é apenas expectativa.
O fluxo de comércio do café é um quebra-cabeça complexo. Volume, posição, expectativa, hedge e necessidade financeira se misturam diariamente.

Mas uma coisa parece clara neste momento:
Grande parte das safras brasileira, de 2025 e a próxima de 2026, continuam completamente expostas ao preço.
O mercado vai testar essa convicção.

Boa semana,
Gustavo Matias
Instagram: @matiascoffeetrading

*Não é recomendação de compra ou venda
*Teremos curso de Precificação e Bolsa dia 24 de Março
*Teremos curso de Precificação e Exportação de Café dias 25 e 26 de Março
*Temos o curso de Hedges e Operações Estruturadas, a agendar, consulte
*Matricule-se pelo 16 99291-2005, diretamente comigo