O mercado fechou sexta-feira em 341,65 centavos, base Setembro, contra um fechamento sexta-feira retrasada em 309,35 centavos. Mais uma semana que o mercado dispara sem olhar para trás. Aparentemente, ninguém quer ficar vendido nem no Setembro com as entregas se aproximando (e muito provavelmente no Dezembro também). Muito provável saída de posição de vendas, olhando os movimentos dos contratos em aberto. Os spread’s do inverso começam a aumentar. Neste meio-tempo, com as resistências técnicas sendo atingidas, novas compras de Fundos também entraram.

As notícias de Brasil continuam fluindo na questão de quebra de safra e principalmente quebra de renda. Os estoques certificados continuam a cair, já chegando perto das 730 mil sacas. Tecnicamente estamos olhando para os níveis perto de 360 cents como nova resistência.
O mercado de Robusta também começou a ensaiar uma reação, acho por maior interesse em geral, pois as tarifas sobre Brasil continuam e também os efeitos dos incêndios na Indonésia. O Vietnam na entre safra continua com diferenciais altos.

Os embarques brasileiros em Julho foram de 2,7 milhões de sacas. Cerca de 27% menor a/a, porém pouco abaixo de média de 5 anos de 3 milhões. Agosto deverá mostrar números menores, já que os embarques para os EUA, com certeza caíram. Por lá, com o passar do tempo e a não reversão da tarifa de 50% sobre o café, torradores e dealers tentam equalizar os blends da melhor forma possível, analisando o que existe de estoques por lá, o que está em trânsito de outras origens, e novas compras de Robusta. Mesmo com Vietnam já estando a + 600/Novembro, ainda é uma redução de custo enorme versus Brasil com 50% de tarifa (ainda mais com essa nova puxada).
Eu ainda estava com muitas dúvidas sobre a decertificação (recebimento de café dos estoques certificados), porém segundo um importante trader nos EUA, entrando nos EUA paga a tarifa da origem, e segundo ele, mesmo origem México, não vindo direto, não teria isenção. Não esquecendo que quase a totalidade dos certificados não estão em solo americano. Segundo o mesmo trader, os diferenciais Colombianos vêm estreitando semana a semana… ou seja, não conseguem ficar muito tempo sem os embarques do Brasil.
Apesar dos esforços da CECAFÉ, aliado a entidades setoriais e políticas nos EUA para a isenção do café da tarifa extra de 40%, o problema é muito mais político do que comercial… e aí a coisa tá emperrada… na verdade, lentamente só piora. Lula não está nem aí para o café, carne ou fruta brasileira com tarifas nos EUA, mas ligou para o chefe dele (Xi) implorando para voltar a comprar frango do Brasil.

No macro, o Dólar teve um pequeno respiro e segurou os R$5,40. Mercado tinha como certo, dois cortes de juros nos EUA até o final de ano… esta semana o mercado volta a trabalhar com 1 corte de 0,25 pontos. Apesar dos números do CPI (índice ao consumidor) e também o nível de pedidos de desemprego estarem dentro do esperado (apesar que o CPI excluindo alimentos e energia ter vindo um pouco acima do esperado a 0,3% m/m), o número do PPI (índice ao produtor… cadeia primária) veio bem acima da expectativa (0,9% x 0,3%). Se dissecarmos os números, veremos que existem altas pontuais que afetaram bem o número (não foi um aumento em todas as cadeias). Um dos itens que mais subiu, foi passagens aéreas. Julho e Agosto são os meses de férias por lá, e tradicionalmente de alta demanda por passagens. Pode não parecer que passagens aéreas impacte muito, mas por lá impacta. Em 2024 foram vendidas 852 milhões de passagens aéreas internas nos EUA.

Os últimos números também indicam que o impacto das tarifas estão abaixo do esperado até o momento, pois houve uma migração de importações para países ainda em negociação e com isenções (ex México e Canadá) contra países com tarifas estabelecidas (importações da China já são menores). Soma-se a isto, estoques ainda presentes que tiveram entrada antes das tarifas serem implementadas.
Segundo pesquisa, o impacto até o momento é de 9%, o que ainda permite certa administração de repasses, porém a tendência é o incremento mês a mês, até chegarmos a uma média de 20% (a depender de qual será o final com a China). O impacto total para o bolso do americano ainda está por vir.

Por aqui o voo de galinha de Lula se estabilizou na decolagem e provavelmente começa a embicar novamente. O aumento do tom dos presidenciáveis de direita nesta semana muito provavelmente vem das suas próprias pesquisas, que mostra que o blá-blá-blá de soberania começa a dividir com notícias de demitidos por causa das tarifas.
O pêndulo de 2026 volta a balançar. Começam os primeiros rumores de uma possível queda dos juros básicos no inicio de 2026, o que faria até sentido pois a inércia inflacionaria parece estar contida nos 0,2% mensais, mesmo estando acima do objetivo. A inércia residual será muito difícil eliminar com toda política fiscal expansionista do governo. O spread de juros continua muito favorável, e mesmo o capital saindo da Bolsa deve estar migrando para o spread. Se os EUA ainda diminuírem a taxa básica por lá em Setembro, o spread melhora ainda mais. De suma certa forma, os juros impactam o déficit, mas ao mesmo tempo ajuda no controle da inflação… uma hora a conta vai chegar, e a matemática da situação fiscal do pais e eleição vai guiar a moeda.

A Índia ultrapassou a China em 2023, como o pais mais populoso do mundo. Por enquanto não adiantou a revogação em 2016 da lei na China, que limitava o número de filhos. A queda da população ano a ano continua… e tem mais! A queda do número de casamentos também. Em 2024 a população chinesa caiu pelo terceiro ano consecutivo… e 22% da população tem mais de 60 anos. Com uma população bem mais jovem que a Chinesa (bem verdade ainda com menor poder aquisitivo), a Índia ainda vai surfar do chamado bônus demográfico. Os indianos também são tradicionais tomadores de chá, porém olhando para o futuro, obviamente sem tirar os olhos da China, não deveríamos prestar mais atenção na Índia e ajudar para que os indianos peguem gosto pelo nosso cafezinho????

Quebra de safra, quebra na renda, incêndios na Indonésia, tarifas, percepção de estoques baixos, squeeze no Setembro e no Dezembro, incertezas geopolíticas… fato ou percepção… não importa! Como dizia um inteligente antigão: nunca lute contra uma tendência!… até ela deixar de ser!

Boa semana todos!
Joseph Reiner