O mercado fechou sexta-feira em 366,50 centavos base Dezembro, contra sexta-feira retrasada em 396,85 centavos. Uma semana impressionante em NY e Londres.
Impulsionado por compras de Fundos com altos volumes, NY testou novamente a casa dos 420 centavos, para a seguir durante a semana devolver tudo.
Na quarta-feira chegamos a ter uma oscilação de mais de 35 centavos em um só dia! São movimentos muito bruscos, somado ainda pelo aumento de margem de garantia exigida pela Bolsa de NY para a posição de Dezembro em 11 mil USD/contrato.
Como disse um exportador amigo: contra esse pessoal sou obrigado e jogar sem goleiro! Já está “muito fácil” conseguir linhas de financiamento para comprar café, imagine linhas para margens de hedge.
Temos aí uma mistura de fatores climáticos (Brasil principalmente agora), fatores macroeconômicos (taxas de juros), microeconômicos (tarifas americanas), um mercado que permite liquidez aos Fundos, oscilações dos números de demanda.
Uma série de fatores que em determinado momento acionam ordens de compras/vendas que se auto-alimentam. Lembrando que cerca de 50% das ordens diárias são ordens passivas, geradas por algoritmos.
Até o dia 16 quarta-feira, os Fundos continuavam a aumentar suas posições líquidas compradas.
O volume dos cafés certificados continuam a cair chegando perto das 650 mil sacas, e continuam sendo os cafés Arábicas mais “baratos“ no momento para o mercado americano enquanto durar as tarifas sobre os cafés brasileiros. Novamente lembrando que, a partir de Janeiro, qualquer café mesmo certificado, destinado ao mercado europeu necessita ter o certificado EUDR.
Com as tarifas de pé, a Bolsa poderia se tornar um destino para os cafés brasileiros, só que o Brasil não tem nem a qualidade nem a quantidade suficiente nesta safra para suprir a Bolsa (sem mencionar a certificação EUDR).
Independente da direção do mercado, bem provável ele continue invertido até a safra que vem.
Com o Setembro 26 chegando perto dos 300 centavos, tenho certeza muitos torradores começam a coçar os dedos para aproveitar os spread Dec25/Sep26 em quase 60 centavos.
Nos fundamentos, a safra no Vietnam se consolida e os diferenciais continuam a ceder, já entrando na esfera negativa para entregas de Janeiro em diante.
No Arábica, todo foco está na ocorrência de chuvas no Brasil. Tivemos semana passada algumas chuvas em partes da Mogiana e no Sul de Minas.
As previsões para a semana entrante são indicativas de chuvas mais volumosas, o que devem gerar uma boa florada.
Obviamente isto pode fazer o mercado ceder mais, mas também precisamos lembrar que necessitamos que as chuvas continuem para a boa fixação e inicio das fertilizações. Vários relatórios indicam um inicio de “La Nina“, o que não é obrigatoriamente um indicativo de seca, mas que muitas vezes leva a um regime de chuvas erráticas para o Sul de Minas.
Uma boa/ótima florada será um indicativo de uma ótima safra, porém ainda não será uma garantia.
Do lado da demanda, a maior torrefação dos EUA (JM Smuckers) anunciou que irá aumentar novamente os preços. Será o 3° aumento este ano, e o 5° em 12 meses. Apesar disto, a empresa indica que o consumo continua resiliente ao aumento de preços. Aliás, em conversa com alguns torradores, este parece ser o cenário atual. Acreditam na resiliência no consumo e inelasticidade histórica, para que o consumo não sofra queda. A manutenção dos mesmos patamares de consumo ano a ano já será um ótimo resultado considerando os impactos históricos nos preços porém, dependendo do USDA ou ICO, em que ambos projetam crescimento de consumo, já alivia um pouco a condição apertada da oferta e procura.
No macro, a queda de juros por lá e a manutenção por aqui não foi supresa. O spread de juros vai continuar a manter o fluxo positivo de entrada. O enfraquecimento do mercado de trabalho, a resiliência inflacionária, bem como uma política fiscal mal controlada com certeza vai manter o Dólar sob pressão globalmente.
No momento não devemos ter nenhuma supresa quanto uma desvalorização do Real.
Uma comissão formada por Republicanos e Democratas vão entrar com um projeto no Congresso/Senado americano para eliminar as tarifas em cafés importados nos EUA. Importante, pois continua a deixar o tema em visibilidade, porém as chances de sucesso ainda são pequenas de passar em ambas as casas dominadas por Republicanos, que não vão querer se indispor com a Casa Branca.
Ou seja, a conjunção Dólar + NY pode começar a jogar contra os valores em Reais. Apesar de ainda a água estar rolando debaixo da ponte, importante o produtor não só mirar os 3 mil Reais.
Boa semana a todos!
Joseph Reiner