O mercado fechou sexta-feira em 378,05 centavos base Dezembro, contra o fechamento de sexta-feira retrasada em 366,50 centavos. Esta semana pouco mudou nos fundamentos que regem o mercado, e ao mesmo tempo, muito coisa mudou na geopolítica e no cenário macro.
Os estoques certificados continuam a deslizar chegando perto agora das 570 mil sacas. Isto mostra que continua a ser o café Arábica mais barato no mercado, e que o Brasil continua sem a qualidade, quantidade, e disposição de risco (com tarifas e EUDR) para certificar.
As chuvas recentes continuam a ajudar a boa umidade que havia no solo, com as chuvas esparsas que vem acontecendo desde Junho. É claro que são somente parte do enredo. Precisamos agora, mais do que nunca, a sequência de chuvas para manutenção das floradas já abertas (Conilon e algumas áreas mais baixas das regiões de Arábica), e a indução final das outras áreas de Arábica. O risco clima ainda dá suporte ao mercado.
Continuamos com 20 centavos de inverso entre o Dezembro NY e o Março NY, e 60 centavos entre o Dezembro NY e o Setembro NY. Não podemos esquecer que o Setembro já indica a safra nova de 26/27, então os produtores já sabem qual o nível de desconto que será aplicado. Este inverso reflete a parte dos fundamentos que reflete a situação muito equilibrada entre oferta e demanda neste ano safra, mas também reflete qual rumo o mercado tomará em caso de uma boa safra do Brasil para 26/27.
Os Fundos reduziram um pouco a posição comprada, base 23 de Setembro. Nada fora do comum com a volatilidade presente, o que para o capital especulativo é colírio e atrai bastante liquidez. A arbitragem NY & Londres continua beirando os 180-200 centavos.
A safra do Vietnã vai se confirmar na casa dos 30 milhões de sacas. O clima no Vietnã também continua sendo notícia. A última depressão tropical não causou danos a área de Robusta, e agora os olhos estão no próximo tufão que se aproxima.
Os diferenciais para safra nova deram uma pequena apertada, mas traders continuam afirmando na hora da negociação sai a level ou negativo.
Outro fator é que o frete marítimo mantém sua trajetória de queda na região, apesar de um possível imposto marítimo que os EUA irão impor a navios chineses a partir de 14 de Outubro.
No lado da demanda, nenhuma supresa no comunicado da ABIC que o consumo está sendo impactado em pouco mais de 5% no Brasil devido ao aumento do custo do café na gôndola. Nenhuma supresa em queda de consumo em países com forte base de consumo na faixa “econômica“. A rede Starbucks anunciou o fechamento de centenas de lojas e a demissão de perto de 1.000 funcionários. Muito mais uma decisão de erros na estratégia comercial da empresa, do qual como gerir o aumento de custos (não só de café) foi apenas parte. No fundo, a rede perdeu a fidelidade do cliente. A competição melhorou, e a experiência do cliente no Starbucks piorou.
Do outro lado, o novo CEO global da Nestlé será o ex líder da marca Nespresso. O que mostra o sucesso, crescimento e resultados do consumo de cápsulas (casa ou escritório).
Aproveitando assunto demanda, muito provavelmente teremos um novo adiamento da implementação da EUDR. Pois é… vamos implementar isto quando os preços estiverem mais baixos…
No macro, após várias reuniões secretas entre os dois países, Trump e Lula se encontraram “sem querer“ na ONU. Rolou uma química… segundo as duas partes. Significa uma possível distensão entre as duas partes? Difícil dizer… o ego de Trump é muito grande para ele mudar o trajeto sem algo significativo vindo do lado de Lula… o que é pouco provável. Além do mais, o mês de Agosto trouxe $29,5 bilhões de dólares de pagamentos de tarifas aos cofres do governo americano. Economistas preveem que o ano de 2026 trará cerca de $500 bilhões de dólares de pagamentos de tarifas. O quão significativo é isso? A previsão do deficit americano para o ano é de $1,7 trilhões de dólares… ou seja, as tarifas terão um grande impacto se o governo usar para abater a dívida. Um grande impacto no sentido de melhora fiscal e consequente alivio para o juros americanos.
Com a inflação ainda dentro de certo controle (os últimos dados do PCE de +0,3% veio dentro das expectativas mantendo a inflação perto dos 3% x objetivo de 2%) e a economia crescendo acima dos 3,5% anualizada, se este montante for usando de maneira pró-ativa, temos uma perspectiva mais positiva sobre o Dólar. Mas lá como aqui, ainda muita água para rolar debaixo da ponte.
Outro fator de atenção é novamente o aumento de tensão da guerra da Ucrânia. O avanço lento e gradual russo… estolou. A Ucrânia começa lentamente empurrar as forças russas, e pior… com tecnologia própria, manufaturou novos drones de longo alcance, que estão causando um desastre nas linhas logísticas e nas áreas de infraestrutura petrolífera. Já falta combustível nas principais cidades como Moscow e São Petesburgo.
Não é a toa que a Rússia começou a cutucar de maneira aberta os países membros de OTAN. Drones na Polônia e Dinamarca, invasão do espaço aéreo da Estônia e Romênia. Putin acha que Trump não vai reagir… a coisa começa a ir mal de novo para o lado dele… nada impede de ele dobrar a aposta. Mais um fator de suporte do Dólar.
Por aqui o cenário melhorou para o atual governo. A popularidade de Lula vem gradualmente melhorando.
A PEC da blindagem foi um tiro no pé, e mesmo com apoio de congressistas do PT, ficou a mancha em um congresso considerado de direita. Com isto, a tentativa de uma anistia ampla (que tem não tem amplo apoio popular) também patina.
A maioria no STF que tinha um velado apoio para um revisão de dosimetria das penas, agora também se sente fortalecida para “bater o pé“. Ou seja, em geral… um verdadeiro tiro no pé!
Até o Governador Tarcísio puxou o freio novamente… ou sentiu o golpe na pesquisas internas, ou no fundo nunca realmente planejou ser candidato.
Por baixo de tudo isto, a dívida continua a aumentar rumando para 80% do PIB, a inflação de serviços continua resiliente, a indústria em Agosto teve o seu pior desempenho em 10 anos, e o crime organizado vai tomando conta (apesar dos esforços da polícia).
Mas sabe como é… com milhões beneficiados de bolsa disto e bolsa daquilo, e uma renda fixa que dá ganhos reais de quase 10% sobre inflação (nada mal para as classes A e B+)… se a direita não tiver um candidato com um alto grau de carisma, e que consiga transmitir uma mensagem de valores e segurança, já sabem o que isto significa para o câmbio…
No começo de cada semana, a única certeza é a incerteza… olhando a “foto“, pelo menos o Dólar deve segurar os níveis de R$5,30 e NY deve segurar o suporte de R$5,60.
Boa semana a todos!
Joseph Reiner