O mercado fechou sexta-feira, base dezembro, em 228,80 centavos, cerca de 10 centavos abaixo da sexta feira retrasada. Vamos começar o mês com algumas considerações:
1- O MACRO continua tendo impacto não somente no mercado café como em outros mercados (grãos, energia, etc…). As declarações do FED continuam acenando para um aumento de 75 pontos percentuais na taxa básica de juros este mês, sendo mais possível com os dados de empregos ainda mostrando bastante força nos USA. Apesar de todas as semanas, as perspectivas econômicas do Brasil continuarem melhorando (com uma taxa de juros de 13,75%), a alocação de risco pode pesar em menos capital alocado ao Brasil do que o esperado (pelo menos no curto prazo). A China mostrou dados do seu PMI abaixo do esperado… Putin continua lentamente estrangulando a Europa de energia, e a própria eleição brasileira pode conter a valorização do Real. Real forte com NY forte, no curto prazo, pode não ser o cenário que vamos ver.
2- ESTOQUES: precisamos lembrar que historicamente, os meses do período de verão no hemisfério norte, que coincide com o período de colheita no Brasil, na maioria dos anos, são meses que temos uma sazonalidade no consumo e uma maior abundância de entrada de cafés. É normal nestes meses, observarmos os estoques GCA subirem ou permanecerem estáveis. Os estoques certificados, até alguns anos atrás, tinham uma dinâmica diferente, pois quase nenhum café do Brasil conseguia certificação. Hoje o cenário é diferente e também reflete um pouco mais o que acontece com os estoques em geral.
Quem olhar somente a foto, vai correr o risco de esquecer do filme. E o filme mostra que o inverso no DEZEMBRO-MARÇO só vem aumentando… ou seja, o mercado está nos dizendo que o final do filme vai ser diferente do que estamos vendo agora em termos de estabilidade de estoques. O mercado está nos dizendo que mais e mais, quer saber onde está o café do Brasil, e qual realmente é o tamanho da safra.
3. CLIMA: Li essa semana que a agência de metereologia das Nações Unidas (WMO) está prevendo um forte La Niña para este semestre, ocasionando o que eles chamaram de “triple dip“, ou seja, três anos seguidos de efeito maior ou menor do La Niña. Todos nós sabemos que em geral, este fenômeno pode significar chuvas irregulares para o Sul e Sudeste do Brasil. Nem preciso dizer aqui o que isto iria significar para a florada e consequente “pegamento“.
4. BRASIL: colheita se encerrando, armazéns com menos estoques do que o esperado, muitos pedidos de rolagem de entregas futuras, cooperativas soltando comunicados da surpresa da queda de safra… Enfim, poderíamos até pensar que fosse blá-blá-blá de produtores querendo puxar mercado… mas quando vejo Cooperativas do Cerrado comprando com afinco cafés das Matas de Minas… Alô Houston, realmente temos um problema!!
Achava que com uma safra de Arábica de 38,5 ou 40 milhões, poderíamos transitar até a próxima safra Brasil em 2023 com 5 milhões de déficit de estoques, que poderiam ser mitigados com uma eventual queda de demanda devido a inflação e/ou aumento do uso de Robustas no blend. Com isto o mercado trabalharia com um inverso leve e possivelmente abaixo de 200 centavos.
Agora, novas considerações:
– Com a safra muito possivelmente sendo 35 milhões ou menor, podemos estar falando de um déficit de 10 milhões de sacas (não esqueçam, seriam duas safras seguidas neste déficit), o que torna a equação consumo/blends/estoques, bem mais complicada.
As variáveis macro/estoques/clima podem estar nos mostrando uma foto que, se os números abaixo de 35 milhões se confirmarem, aliado a um La Niña… o filme será bem diferente!
Boa semana a todos!
*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.