O mercado fechou na última quinta-feira em 183,60 centavos base Maio, contra um fechamento de 170,50 centavos na sexta-feira retrasada. Tecnicamente uma semana muito boa de consolidação, batendo acima dos 184 centavos, com um volume bem razoável de compras de fundos durante a semana.
São várias novas “velhas” notícias e a realização de algumas expectativas no fundamento, que vão cimentando no curto e médio prazo, um bom suporte ao mercado:

● Redução da safra de Robusta na Indonésia;
● Vietnam provavelmente chegando no seu limite de produção perto dos 30 milhões de sacas;
● Expectativa da OIC de um déficit de cerca de 7 milhões de sacas entre produção e consumo;
● Novas expectativas da próxima safra Brasil entre 40-42 milhões de sacas (o que juntando as duas safras, gera o déficit);
● A contínua diminuição dos embarques Brasil e globais no primeiro trimestre e nenhuma expectativa de melhora até a entrada da safra Brasil;
● Estoques certificados caindo para menos de 730 mil sacas.

No macro, as notícias são mais ambíguas. Com anúncio da OPEP, de que estará reduzindo a oferta global, o mercado futuro de petróleo obviamente teve uma boa apreciação durante a semana, dando espaço para os fundos aumentarem suas alocações para posições de maior volatilidade.
Cacau e Café foram agraciados, porque os fundamentos também ajudam as alocações para estas commodities.

Por outro lado, continuam as inseguranças sobre o mercado financeiro internacional. Agora, tanto o FED Americano como o Europeu, destacam a necessidade de uma maior regulação e sistema de auditoria dos agentes financeiros não-bancos (fundos independentes, gestores de empréstimos, etc…) que não possuem depósitos diretos, mas detém mais de 15% de toda alocação de investimento global.
Durante a época dos juros baixíssimos, muitos investidores procuraram opções com maiores retornos (e maior risco) nestas instituições. E como o SVB, ficaram short… juros baixos… agora veio a conta nos vencimentos. E cadê o lastro?
Então, importante ficarmos atentos à esses problemas que muitas vezes não parecem ligados ao mercado de café, mas que obrigam os fundos a diminuírem suas alocações em mercados de maior volatilidade: as commodities.

Em termos de demanda, vale o registro que a curva de juros ao consumidor (principalmente a mediana dos empréstimos para compras de casas (mortgages)) caiu novamente na última semana nos USA. Desde o pico em Novembro de 22 (cerca de 7,2%), a mediana já caiu 1%. E não foi uma questão de aumento do pool de imóveis a venda, foi mesmo porque que está começando a faltar fôlego na economia.
Apesar do nível de emprego continuar alto (3,6%), existe uma forte dicotomia: faltam empregados para as áreas de serviço com baixa remuneração, e continuam as demissões de altos salários (principalmente tech e finanças). O consumidor com maior poder aquisitivo está ficando mais apertado e a pia com certeza vai consumir menos por lá!

Outro detalhe interessante que devemos ponderar, são os dados de report da Nestlé que mencionei na última semana. Mais especificamente que a empresa pretende investir em inovações da área de cápsulas, pois de 2021-2022 o Market Share do segmento caiu de 9% para 7%.
Até aí nenhuma grande surpresa, já que estávamos saindo da pandemia (maior consumo no lar) e a perda do poder aquisitivo de boa parte da população, principalmente segundo semestre 2022. Porém, se aqui, com todos nossos problemas, nós estamos aí quase na faixa de 10% de consumo em cápsulas, acho que podemos inferir em mercados com um poder de consumo maior, este segmento pode muito bem estar perto dos 15% (sinceramente não tenho os dados globais… estou extrapolando versus o consumo Brasil, ou seja, um chute abalizado!).
Para sermos conservadores, vamos supor Brasil + USA + EEUU + JAPAO com 7% de consumo em cápsula. Quase 7% de 90 milhões de sacas… noves fora… 6 milhões de casas. Este montante, ao longo dos últimos anos, migrou para um segmento que sabemos, vem desenvolvimento a tecnologia que usa metade do pó/xicara que o segmento tradicional usa/usava… e não tem a pia como aliada. O déficit existe mas pode não ser tão grande assim.

E para finalizar, li uma notícia interessante… que o Brasil deve mais de $2,5 milhões de dólares à OIC… e que, o governo pretende pagar a dívida nas próximas semanas.
Não é pelo valor, pessoal… não quero entrar na mesquinharia, mas considerando os serviços inestimáveis que o Instituto Agronômico de Campinas, Biológico de Campinas, Emater, Embrapa, Procafé e empresas de consultoria, já prestaram para a cafeicultura global (repito, global), os estudos técnicos e científicos de várias Universidades Brasileiras de como o café na verdade é muito benéfico para a saúde, da força e persistência do produtor brasileiro abastecendo continuamente o mundo, com o volume necessário e cada ano de melhor qualidade, e portanto garantindo emprego a milhares de torrefações e cafeterias ao redor do mundo, acho até falta de delicadeza e sensibilidade, cobrarem a gente… vamos, vamos pagar!

Feliz Páscoa e boa semana à todos!

*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.