O mercado fechou sexta feira pouco acima dos 215 centavos base Julho, mas acima do fechamento de sexta-feira retrasada.
Como todos sabem, a grande movimentação da semana foi a entrada da primeira grande frente fria do ano, que apesar de no final das contas não ter causado nenhum dano significativo, renovou as lembranças do ano passado já que em muitas localidades a temperatura ficou apenas 2/3 graus acima de onde o dano poderia ter sido bem pior.

Durante a semana o mercado chegou a trabalhar a quase 230 centavos pré entrada da frente fria.
Tecnicamente o mercado fechou em cima de um suporte importante em 215 centavos. Temos um suporte perto de 210 centavos, e outro suporte importante em 202 centavos. Do ponto de vista macro, sem nenhuma outra frente fria mais forte chegando, a memória do mercado é curta e poderemos novamente testar os 202 centavos.

Em termos de estoques, a Green Coffee Association liberou durante a semana o seu report mensal dos estoques nos portos americanos. Durante o mês subiu perto de 100 mil sacas para 5,9 milhões de sacas estocadas. Os estoques certificados caíram um pouco para 1,108 milhões de sacas. Em termos de estoques nenhuma mudança significativa.

Apesar do foco na semana ter sido a frente fria, no mercado financeiro a derrocada continua. A bolsa de valores de NY já perdeu quase 25% frente ao seu pico de valorização, em cima de temores de uma recessão chegando, e perda de rentabilidade das empresas frente ao aumento de custos.

O Real teve uma valorização na semana, muito mais em função da queda do Dólar frente a uma cesta de moedas (o que ajudou a tendência em valorizar outras commodities). Isto tudo porque o FED americano aumentou somente em 0,5 pontos percentuais os juros, e esta semana voltou a declarar que subirá os juros o quanto for necessário para conter a inflação.

Do ponto de vista de fundamentos continuamos a ver a forte possibilidade de uma safra Colombiana menor do que a esperada, e em Honduras basicamente já se confirma a expectativa de uma safra menor. Também observamos vários relatórios esta semana, dizendo que o maior exportador da África (Uganda), também terá uma safra menor, efeito de uma seca prolongada.
Já o USDA está prevendo que a Nicarágua terá uma safra maior do que a prevista (cerca de 100 mil sacas), mas não o suficiente para fechar na América Central a queda em Honduras.

A CONAB emitiu um novo relatório esta semana reduzindo a safra brasileira de 55,7 para 53,4 milhões de sacas para esta safra que se inicia. Segundo a entidade, teremos uma redução em Arábica de 38,8 para 35,7 milhões de sacas. Conilon tivemos um pequeno aumento de 17 para 17,7 milhões de sacas.
O RABOBANK também emitiu esta semana um novo relatório indicando que globalmente poderemos ter um surplus de 1,7 milhões de sacas neste ciclo 22/23 & um déficit de 5,1 no ciclo 21/22. O banco estima produção mundial em 172,3 milhões de sacas (com o Brasil produzindo 64,5 milhões de sacas), e um consumo mundial de 170,6 milhões de sacas. O banco vê como grandes riscos uma queda de demanda de Russia/Ucrânia em cerca de 25% e uma redução da China de cerca de 10% devido ao vai e vem dos lockdowns. O banco também indica uma tendência de queda no consumo do Brasil, frente ao forte aumento de preços na gôndola e no geral de outros custos.
Apesar de todos os possíveis pontos de queda de consumo, o banco ainda indica que o consumo global manterá um crescimento de 1,5%.

Pessoal, vamos fazer uma conta rápida… vamos devolver aí os 3 milhões de sacas que a CONAB reduziu e também vamos colocar mais uns 3 milhões de Conilon (17,7 milhões & todos os outros números de mercado que indicam 20/21 milhões)… Voltamos aí para 59/60 milhões de sacas. Este número ainda estaria cerca de 4 milhões de sacas abaixo do número do RABOBANK. E aqui, por favor, não estou julgando se os números estão certos ou errados, estou apenas olhando do ponto de vista de como o mercado pode estar avaliando (i.e. a CONAB sempre joga para baixo e o RABOBANK tem uma boa visão da demanda).
Existem muitas variáveis que podem levar os números a convergir… desde uma safra de Arábica maior no Brasil até uma queda mais acentuada da demanda no trio RÚSSIA/UCRÂNIA/CHINA.
De qualquer forma que olharmos, estamos muito perto de um número bastante equilibrado entre oferta e procura para 22/23 (até meados de 2023 pelo menos… Onde entra a próxima safra brasileira!!). Tirando o frio da equação, a próxima florada Brasil vale uns bons 75 centavos para cima ou para baixo!!

Acho importante trazer notícias menos relevantes, mas que mostram que o consumo global, apesar de tudo, ainda apresenta bons sinais, principalmente em novas “fronteiras“, onde estamos cativando novos consumidores.
Nas duas últimas semanas tivemos a Colômbia anunciando a abertura de lojas nos Emirados (cafeterias Juan Valdez)… a rede Canadense Tim Hortons, anunciando abertura de lojas no Paquistão… e o fundo soberano da Arábia Saudita inaugurando sua empresa de café com o objetivo de aumentar o consumo e levar a cultura e história do café do Reino para o mundo, com investimentos de mais de 300 milhões de dólares no setor!

Fora isto, seguidamente nos jornais (pelo menos no Estadão – o que eu leio), várias reportagens de onde se tomar o melhor café em São Paulo… e também que os clientes nos restaurantes, estão cada vez mais exigindo um bom café para fechar uma boa refeição! Um café ruim servido após uma boa refeição estraga toda a experiência e leva a perda de clientes!

Bora colher!
Boa semana a todos!!!

Joseph Junqueira de M. Reiner*

*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.