O inicio da semana foi bem conturbado com as notícias de sérios problemas financeiros com a maior incorporadora imobiliária da China (Evergrande). Com passivos da ordem de US$300 bilhões, e considerando que o mercado imobiliário representa quase 30% na economia chinesa, a notícia não foi uma marolinha.
A empresa garantiu que vai honrar os US$129 bilhões em juros devidos a curto prazo e, apesar do governo Chinês ter enviado mensagens dúbias ao mercado, é bem provável que não existe o interesse de derretida dos mercados (e da empresa), bem como o que fazer com os 170 mil funcionários. Porém, uma possível diminuição da atividade da empresa é bem possível, e quando você representa um quinhão tão grande da economia, com certeza temos que ter atenção que isto não trará uma diminuição da atividade econômica em geral da China.

Considerando que o impacto em grãos e proteínas seria bem grande se isto acontecer, quanto mais o café mostrar possíveis “oportunidades“, maior poderá ser o rebalanceamento dos fundos indexados para o café em detrimento de grãos.

Bolsa NY sofreu no inicio da semana e chegou a trabalhar abaixo dos 183 centavos, porém novamente mostrou boa resiliência e fechou a semana acima dos 193,50. Mesmo com a possibilidade de chuvas para os próximos dias, novos relatorios chegam ao mercado mostrando que o impacto da dupla seca/geada terá um efeito forte nas próximas duas safras.

Já sabemos que a grande safra brasileira de 20/21 trouxe um superávit de em torno de 8 a 12 milhões de sacas (difícil medir ainda impacto da pandemia na demanda), e que a safra 21/22 vai trazer um déficit perto de 10 milhões de sacas (considerando safra Brasil na mediana das previsões – 33 milhões).
A pergunta agora é: Qual o impacto seca/geada na safra 22/23????

Vocês podem observar que no momento a atividade ainda está sob impacto do verão no hemisfério norte, carrego da grande safra brasileira, e a turbulência da crise logística (em preços e atrasos). Mas se olharmos com atenção os meses da bolsa de NY no primeiro semestre do próximo ano, podemos observar que, devagar mas seguidamente, o mercado não mais está precificando carregar café (a diferença entre preços nos meses de entrega na bolsa vem caindo). Isto, se continuar, significa que o mercado não está pagando para você carregar café… ele precifica um prêmio para você entregar o café mais rápido (déficit).

Volta a pergunta: Quanto o mundo terá que produzir (inclusive Brasil) para que o mercado volte a pagar para você carregar café (fim do déficit) na safra 22/23????

Vamos arriscar…: se tivermos uma demanda em torno de 173 milhões de sacas no ciclo 22/23, o Brasil terá de produzir em torno de 65 milhões de sacas… isso só para deixar o placar zero a zero. Porque?? Em 20/21 produziu 70+ sobraram 10. Em 21/22 produziu 50+ faltou 10!
Para deixar uma “gordurinha” em 22/23 pelo menos 70 milhões de sacas (considerando que de 20/23 a demanda cresceu 5 milhões – sendo conservador pessoal!), e aí talvez o mercado retorne os 50 centavos que até o momento subiu pós geada (conta hipotética pois aqui considero a mesma produção em outros países nesta safra, e o câmbio no mesmo patamar) .

Outra notícia que causou interesse (extraído do relatório diário da CECAFE) , é o aumento do cultivo de café na Califórnia e o início de testes de campo na Flórida. Obviamente ainda em minúsculas quantidades, mas as mudanças climáticas, e os aumentos recentes dos preços estão incentivando os estudos e plantios pelo menos nos USA. Eles devem pegar gosto por beber cafés do Brasil, porque produzir… nunca é boa ideia.

Boa semana a todos !

Joseph Junqueira de M. Reiner*

*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.

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