O mercado fechou nesta sexta-feira em 172,80 centavos base Março, uma melhora de cerca de 3 centavos frente a sexta-feira retrasada, porém o mercado trabalhou boa parte da semana, acima da resistência de 175 centavos, voltando abaixo deste nível na sexta-feira… parte em função de tomada de lucros, parte em função da oscilação do câmbio na sexta-feira.
No front dos fundamentos não existe nenhuma notícia realmente nova. Os problemas na Colômbia, alguns atrasos no Vietnam, e números de safra no Brasil, que estão se estreitando para uma certeza de que não teremos uma super safra. Na minha opinião, o macro continua tendo um peso importante nos últimos movimentos de commodities.
Com o aumento do FED americano de 25 pontos e não os 50 pontos anteriormente previstos, o FED começa a sinalizar um possível pouso suave da economia americana, baixando os níveis inflacionários. O porém ainda existe… dados divulgados nesta sexta-feira, mostram criação de 517 mil novos cargos nos USA em Janeiro, mesmo com a onda de demissões no setor de tecnologia (mercado esperava máximo 200 mil). O índice de desemprego chega a 3,4% (nível histórico mais baixo), e por isso mesmo o FED já deixou um viés de mais incrementos para a próxima reunião. O total de empregos criados em 2022 nos USA foi de 4,8 milhões.
O objetivo do FED de trazer a inflação para patamares de 2% (Dezembro anualizado ficou em 6,5%), e o balanço entre juros/recessão para chegar neste patamar, está ficando cada vez mais complicado.
A resiliência da economia americana, mesmo frente a esta viés inflacionário, é impressionante!! O BC Brasileiro (como também o BC Europeu) mantiveram um discurso mais “pesado” e a atual taxa de 13,75% não deve ser mexida tão cedo (mercado sinaliza, talvez para segundo semestre, início de queda, à depender do comportamento fiscal do governo).
As últimas declarações do Presidente, chamando o Presidente do BC de “aquele cidadão”, e o recado do Presidente da Câmara que pode já começar a tramitar a reforma tributaria antes do governo anunciar a LDO, traz ainda mais incerteza neste primeiro semestre.
Se os USA conseguirem manter um pouso suave da economia, e mantiverem os juros estáveis, vai começar a tornar os ativos brasileiros muito atrativos (mesmo com os riscos inerentes). A bolsa brasileira hoje, entre emergentes, é a maior barganha do mercado. Com isso, o fluxo de entrada de dólares deve continuar positivo, e apreciar o Real… e com isto dar um bom suporte ao mercado.
Esta posição do FED americano também dá maior amplitude para os fundos se posicionarem mais agressivamente em commodities. Por isso a atenção ao câmbio, e consequentemente aos movimentos dos BC’s!! Porém amigos, como vimos nesta sexta-feira, bastam 24 horas para mudar o viés.
O volume de certificados continua beirando os 900 mil sacos. São os mesmos 900 mil que vão e vem, e as vezes entra um semi washed Brasil (recheado de moka) para participar da festa.
Como os diferenciais de Colômbia e Centrais continuam ai na faixa de + 50, não precisa ser nenhum matemático para entender que todos esses cafés novos estão direto ao mercado.
Como me disse esta semana um experiente trader… “essa situação está distorcendo totalmente o mercado”. As Tradings tomaram a ação correta. Lá atrás começaram a tomar estes cafés certificados, frente a problemas com a safra Brasileira e a Colombiana. Natural… quando foram tomando e os certificados saindo da posição, o mercado começou a inverter.
Historicamente, na minha humilde opinião, a ideia estava certinha… algum grande torrador comprava NY ou opções… e comprava todo este café certificado do trade. NY puxaria forte para buscar novos cafés que estavam custando +40/+50. O mercado permaneceria invertido por mais um tempinho, até novos cafés serem certificados… e o mercado voltaria em carrego para um patamar talvez 30 a 40 centavos acima de onde está hoje, e todos estariam felizes. Novamente, opinião pessoal minha (nenhum fonte de mercado ou informação de alguma empresa específica):… pensaram que iam achar uma casa para os certificados… e aí veio o problema… não acharam! Ou se acharam, foi para pouco volume. As grandes torrefações não tomaram o café, e aí não houve opção à não ser ficar levando o inverso nas costas (prejuízo bem razoavel) e re-certificando os cafés.
Como na recertificação aparentemente some, o penalty de qualidade/idade vai girando até aparecer uma situação de carrego ou despejo. Ficou a impressão de algum problema, mas seria de demanda… e o mercado foi afundando. As Tradings amargaram um bom prejuízo (pelo menos aquelas carregando café no inverso); o torrador perdeu uma boa oportunidade, e os produtores abaixo de 200 centavos.
O Rabobank emitiu relatório esta semana sobre a safra Brasileira. Um detalhe importante é a redução da estimativa de safra Brasil, diminuindo o superávit global de Arábica de 4 milhões para 1,5 milhões. Minha simples opinião: superávit ou deficit é de 10 milhões para cima! 4 ou 1,5 milhões é jogo aberto. É um fator de sustentação obviamente, pois estamos saindo de um ano deficitário de Arábica (em teoria). Outro detalhe importante do relatório é a estimativa de crescimento de demanda na faixa de 1,6% anual. É um número bem factível e realista.
Consumo na faixa de 173 milhões é um número bem realista para ser usado na análise de oferta e procura.
A rede americana Starbucks relatou ao mercado seus resultados do último trimestre, mostrando um aumento recorde em seu faturamento, o que não é supresa frente aos aumentos de preços. O interessante é que as vendas aumentaram em volume, 5% nas lojas próprias em comparação ao mesmo periodo em 2022 (excessão da China… mas aí tem todo o tema da Covid).
As exportações globais em Dezembro foram 10,88 milhões de sacas equivalente, com um decréscimo de 1 milhão de sacas em comparação a Dezembro/21.
Interessante notar que o Arábica caiu quase 14%, e o robusta basicamente inalterado. Voltamos ao ponto do aumento do uso de robusta nos blends, o que de certa forma “segurou“ o problema no Arábica. Com a safra Brasil 23/24 na tendência novamente de não permitir a construção de estoques, até onde irá a flexibilidade nos blends?
Os números de embarques totais do Brasil em Janeiro devem ficar um pouco abaixo dos 3 milhões.
Mercado construtivo se conseguirmos manter acima de 175 centavos.
Boa semana a todos!
*Joseph Reiner tem 36 anos de mercado em exportação e empresas de varejo. Atuou também no gabinete do Ministro Blairo Maggi e hoje atua em Conselhos, além de ser produtor de café no Sul de Minas.