Sexta-feira o preço do arábica encerrou no menor preço desde novembro/2024, o índice CEPEA fechou em R$ 1.637,87. Futuros para setembro/2026 já são negociados próximos de R$ 1.390,00 por saca, o menor preço desde a entrada da safra em 2024, Arábica tem queda acumulada de 24,58% em 2026.
Robusta apesar de querer esboçar uma pequena reação nessa semana devolveu tudo praticamente na sexta-feira, fechou a R$ 930,15 e acumula queda de 26,37% em 2026.
Geopolítica, guerra e política monetária fizeram o dólar subir essa semana, na semana anterior havia fechado em R$ 4,89 e agora na última sexta-feira fechou em R$ 5,05, subiu mais de 3% na semana.
Relatos no Brasil todo estão indicando que talvez as peneiras graúdas não estariam tão generosas quanto o esperado, uns indicam que pode ser o volume de frutos por roseta que poderia dar mais frutos e menos tamanho, outros indicam que a granação que teria sido ruim e portanto grãos miúdos e sem qualidade iriam definir a safra 26 como menor do que o esperado.
Eu classifiquei alguns cafés novíssimos aqui na Alta Mogiana e as peneiras 17/18 estão em média 10%, porém com o café catado, como ainda é início de safra ainda os cafés têm muita catação. Classifiquei os mesmos cafés sem catar os verdes e a média subiu para 18%, ainda baixa para o esperado. Mas talvez seja racional dado o volume enorme da safra 2026 na Alta Mogiana.
Arrisco a dizer que talvez não tenhamos armazéns suficientes na região para armazenar a safra 26, terá que ser escoada para fora.
Já visitei bastante fazendas, armazéns e compradores, e me chamou a atenção algumas aquisições de caminhões novos extras para dar conta do recado.
Segundo o COT (relatório semanal das posições dos participantes da bolsa de NY) os fundos aumentaram bem as posições vendidas.
É comum ver produtores criticando duramente o pessoal do mercado. Falam dos fundos, dos traders, das exportadoras e cooperativas. Até dizem que o mercado financeiro ganha mais e que as margens são maiores que as do produtor.
Essa visão existe e em parte é compreensível, talvez no passado antigo onde não havia tanta informação disponível como atualmente.
Existe um agente na cadeia que talvez seja difícil de falar, o produtor.
Nos últimos textos tenho falado bastante sobre fluxo, posição e comportamento de mercado. E existe uma característica que é fundamental entender:
O produtor, por natureza, já nasce comprado numa posição especulativa.
Ele produz café, carrega estoque e depende diretamente da variação de preço para definir seu resultado.
Ao decidir não vender ele não está neutro, ele está posicionado como comprado. (geralmente sem nenhum hedge). E muitas vezes, totalmente exposto.
Para quem é do mercado e observa isso nota o risco absurdo que a posição o impõe, qualquer mesa de risco olha essa posição como altamente exposta, situação que o pessoal do mercado evita a qualquer custo, paga caro para montar posições para ficar neutro.
O problema não é vender ou não vender, é achar que não vender não é uma decisão de mercado bem estruturada.
Sim, o café é dele e ele vende quando quiser, mas ao decidir não vender, ele não está fora do mercado, ele está totalmente dentro e posicionado.
Mas na verdade ele não está esperando o melhor momento, ele está apostando no mercado.
Pessoas do mercado estudam essas posições o tempo inteiro, em números, valores, porcentagem e risco, todos os dias.
Enquanto fundos entram e saem do mercado com modelos, gestão de risco e limites bem definidos, exportadores montam hedges e operações estruturadas muito bem organizadas, quanto mais perto de neutro ficar melhor.
O produtor muitas vezes mantém uma posição aberta sem tratar isso como risco, daí que nasce o conflito obviamente.
Quando o mercado sobe, essa posição parece natural, certo? O produtor está comprado.
Mas quando o mercado cai, opiniões contrárias o incomodam, leituras de baixa são vistas como exagero, como erro, não profissional ou até como interesse de quem está “do outro lado”, o lado emocional toma conta e todos que opinam contra a sua posição comprada está errado ou tentando manipular informação.
Mas para quem entende o mercado é obvio a maneira que funciona.
Já dei diversas lives gratuitas sobre como o mercado opera, como é montado o preço e como não faz sentido achar que o mercado joga contra o produtor, mas é um trabalho de formiguinha, leva tempo para o conhecimento chegar e o pessoal entender como as negociações funcionam.
Eu penso que o ponto não é quem está certo, é quem está exposto.
O mercado não precisa cair muito para gerar impacto relevante, movimentos relativamente curtos já representam milhares de Reais de variação para quem carrega volume de estoque sem proteção.
Fundos, exportadores, cooperativas e indústria operam risco todos os dias, entram, reduzem, zeram, protegem.
Não existe apego/prazer à posição de falar que tem estoque, existe gestão. Pelo contrário, quando há risco diminuem o estoque e o tamanho da posição.
Mas no mercado físico, muitas vezes existe o contrário, a posição especulativa é mantida, defendida e ignorada totalmente como risco.
Alguns vão dizer, 2023 para 2024 deu muito certo, 2024 para 2025 deu muito certo, especulação que deu certo é vitrine.
Mas em 2025 para 2026 deu muito errado e devolveu grande parte do lucro obtido em anos anteriores.
E 2026 para 2027? A especulação não para.
Entenda que não vender não te protege do mercado, na verdade te expõe a ele que você tanto critica, e quanto maior o volume maior essa exposição.
O produtor não está errado por estar comprado, isso faz parte do negócio, para mim o ponto é reconhecer isso como uma posição de altíssimo risco de mercado.
Enquanto essa exposição for tratada como ter paciência ou convicção continuará sendo na prática uma posição altamente especulativa.
Aprendam a utilizar ferramentas do mercado financeiro para proteção de preço e estratégias.
Boa semana,
Gustavo Matias
MCT | Matias Coffee Trading
Instagram: @matiascoffeetrading
*Não é recomendação de compra ou venda
*Cursos de maio na MCT:*
19, 20 e 21 – Hedges e operações estruturadas
25 – Travas Financeiras para o mercado de café
26, 27 e 28 – Precificação e Exportação
29 – Como funciona a bolsa e o preço do café
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