Mais uma semana agitada na bolsa.
No Arábica, segunda-feira teve alta de +1.075 pontos e terça-feira +1.485 pontos. Na quarta e quinta-feira o mercado devolveu -1.635 pontos e, na sexta-feira, voltou a subir +905 pontos. No acumulado, alta semanal de +1.830 pontos, encerrando a semana a 332,10 c/lb.
Apesar dessa valorização o mercado físico acompanhou apenas parte do movimento. Em teoria a alta na bolsa foi de R$ 122,00 por saca, porém o índice CEPEA mostrou um aumento de R$ 67,90, e fechou a semana em R$ 1.744,18 por saca.
A volatilidade continua alta segundo o ATR (indicador que mede a amplitude média das oscilações). Hoje movimentos próximos de 2.000 pontos em um único dia são “normais”.
Desde a forte alta de 4.875 pontos ocorrida em 6 de julho, o KC em NY parece ter encontrado uma região de consolidação por volta de 308 e 350 c/lb, com enorme amplitude diária.
O Robusta encerrou a semana praticamente estável, acumulando alta de USD 25/t e fechando a USD 3.782/t. O Conilon CEPEA (13up) terminou cotado a R$ 1.092,56 por saca.
E o dólar também teve uma semana relativamente tranquila, fechou em R$ 5,0754.
No COT os Fundos especulativos reduziram posições dos dois lados. Entre 30 de junho e 28 de julho, os comprados passaram de 35.317 para 30.183 contratos, queda de -5.134, enquanto os vendidos recuaram de 27.168 para 17.843 contratos, queda de -9.326 contratos nas mesmas datas.
Outro dado interessante, os Fundos especulativos estão com mais de 95 mil contratos em Spreading, posições simultaneamente compradas e vendidas que exploram a diferença de preço entre diferentes vencimentos.
Comprados x Vendidos: quem vence essa queda de braço?
À medida que nos aproximamos do dia 21/ago que é o FND do contrato de setembro, e ainda possui 54.648 contratos em aberto, o mercado deixa de discutir apenas clima, produção ou consumo e a briga agora é outra: quem vai ceder primeiro?
O lado comprado
O comprado possui argumentos bastante sólidos:
Os estoques certificados da ICE continuam em queda e durante quase dois meses praticamente não houve entrada relevante de cafés nos pendentes para certificação.
Além disso uma coisa é colher café e outra completamente diferente é esse café estar beneficiado, embarcado, desembarcado nos Estados Unidos ou na Europa, classificado e aprovado para entrega contra a bolsa. Dá tempo para isso considerando uma colheita atrasada no Brasil e qualidade comprometida?
Enquanto esse fluxo não aparecer de forma consistente o risco permanece com quem está vendido.
Caso esses vendidos precisem recomprar posições antes do FND (First Notice Day), o movimento de short covering poderia ampliar ainda mais o backwardation entre setembro e dezembro, que nesta semana chegou a 24 c/lb. Se essas recompras ocorrerem de forma concentrada e acelerada, podem evoluir para um verdadeiro short squeeze, forçando outros vendidos a liquidar posições e empurrando o preço ainda mais para cima.
Outro ponto importante é que para muitos comprados receber café não representa necessariamente um problema. Então podem forçar a saída dos vendidos que não querem entregar. Uma grande trading pode receber esse café, revendê-lo posteriormente e proteger sua exposição através da própria curva de futuros sem dificuldades, a própria indústria também trabalha hoje com estoques bastante reduzidos e pode querer de fato receber café.
Em resumo o comprado talvez acredite que o café não chegará a tempo ou de fato precisa receber o café.
O lado vendido
Existe uma lógica econômica igualmente forte:
Setembro negocia aproximadamente 20 cents acima de dezembro e muitos enxergam esse backwardation apenas como consequência da escassez ou falta de interesse em certificar, só que na minha visão ele é o mecanismo utilizado pelo próprio mercado para tentar resolver essa escassez na bolsa.
Eu acompanho os estoques certificados e considero esse indicador extremamente importante porque ele mostra quanto café está efetivamente apto e disponível para entrega contra a bolsa.
Mas acredito que ele deva ser interpretado junto com os incentivos econômicos existentes, porque um estoque certificado baixo não significa obrigatoriamente falta de café. Pode significar simplesmente que naquele momento fazia mais sentido “decertificá-lo” e vender esse café no mercado do que deixá-lo parado em um armazém certificado da ICE. Além disso desde 1º de dezembro de 2023 quando a ICE passou a impedir a recertificação de cafés previamente decertificados, a dinâmica mudou. Somada às penalidades e aos custos de manutenção essa regra reduziu a atratividade de manter café certificado e os estoques passaram a permanecer em níveis baixos comparados ao passado.
Mas aí penso eu que quando setembro passa a negociar 20 cents acima de dezembro essa conta muda completamente, o mercado passa a pagar um prêmio relevante para quem conseguir disponibilizar café para entrega.
O preço é a linguagem do mercado. Quando falta café o mercado paga mais para atraí-lo.
Resumindo, o mesmo backwardation que hoje mostra a escassez também cria o incentivo econômico para trazer café para a bolsa.
O mercado olha para frente
Na sexta-feira apareceram 2.610 sacas de café brasileiro nos pendentes para certificação em Antuérpia. Esse volume isoladamente não altera o equilíbrio do mercado, certo?
O importante talvez seja olhar por outro prisma. Depois de meses praticamente sem movimentação nos pendentes essa pode ser a primeira indicação de que novos cafés começam a buscar certificação *justamente porque o incentivo econômico aumentou.
O Brasil está colhendo uma safra extremamente volumosa,* não há como negar. Agosto no Brasil marca o início de um período tradicionalmente muito intenso de exportações. Em seguida vêm setembro, outubro e novembro, meses historicamente fortes em oferta brasileira.
O mercado agora não vai discutir expectativa de safra e vai observar esse café físico efetivamente chegando aos destinos consumidores.
O que os estoques certificados não mostram
Grandes tradings internacionais possuem capacidade financeira, logística e operacional para originar volumes relevantes em um curto espaço de tempo. Talvez esse café já esteja hoje sendo desembarcado em Hamburgo. Lembrar que Julho exportou mais de 3 milhões de sacas.
O comprado conhece exatamente o tamanho dos estoques certificados, mas ninguém conhece o volume privado de café que essas empresas podem colocar nos pendentes caso o incentivo econômico permaneça elevado.
Na minha opinião esse talvez seja hoje o maior risco da posição comprada.
E da mesma forma existe um risco para o lado vendido. Se agosto avançar e esse fluxo simplesmente não aparecer a tese comprada ganha força rapidamente e o risco de um novo aperto aumenta.
Quem vence essa queda de braço?
Se hoje eu tivesse que escolher um lado dessa disputa, escolheria o lado vendido.
Acredito que o mercado já remunerou muito bem quem permaneceu comprado até aqui, foram quase 100 cents em 2 meses e o comprador ainda encontra um backwardation excepcional de quase 20 cents para realizar sua rolagem e manter sua exposição em dezembro.
E o lado vendido passa a contar com uma safra muito grande entrando justamente quando o contrato setembro precisa ser resolvido.
Pense que o mesmo spread que hoje evidencia a escassez pode ser exatamente o mecanismo que colocará fim a ela, como citei acima.
Esse agosto será interessante de acompanhar, veremos uma verdadeira disputa entre dois lados que possuem argumentos técnicos consistentes, incentivos econômicos muito claros e bilhões de dólares em jogo.
É mais importante compreender os incentivos de cada participante do que simplesmente tentar adivinhar para onde irá o próximo movimento do mercado, somos coadjuvantes nessa briga de gigantes.
Em breve saberemos qual lado prevaleceu. Em qual lado você acredita?
Boa semana!
Gustavo Matias
MCT | Matias Coffee Trading
Instagram: @matiascoffeetrading
*Não é recomendação de compra e/ou venda
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