*Receita do caos*
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Comentário Semanal 23 de agosto, 2026· 5 min de leitura

*Receita do caos*

· 5 min
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Matias Coffee Trading · Inteligência de mercado

Hoje completo 43 anos, ao lado da minha família, amigos e trabalhando com o que gosto, graças a Deus.

“Coffee is traded in bags. But decisions are traded in information.”

“Café é negociado em sacas, mas decisões são negociadas com informação.”

Gostei muito dessa frase que li porque ela resume bem o momento atual do mercado. Todos hoje têm muita informação disponível: preços, estoques, exportações, clima, posições dos fundos, spreads, diferenciais e Opções praticamente em tempo real.

O segredo é entender o que a informação está dizendo, com tantos indicadores contando diferentes histórias.

No Arábica tivemos novamente uma semana volátil, principalmente na estrutura da curva. Dezembro (Z6) encerrou sexta-feira a 322,65 c/lb, contra 314,30 na semana anterior, o grande destaque foi o contrato de setembro, U6/Z6 fechou a semana a +36,1 c/lb, um backwardation enorme justamente na aproximação do FND (primeiro dia em que podem ser emitidos avisos de entrega para o contrato de setembro).

A bolsa está precificando enorme escassez no curto prazo, enquanto no mercado físico brasileiro os diferenciais continuam pressionados para baixo, existe café sendo negociado e a grande safra brasileira está entrando no fluxo comercial.

Isso parece uma contradição, mas estamos falando de duas situações diferentes.

Existe bastante café no Brasil disponível para exportação, mas difícil no momento é café com qualidade, localização, tempo, documentação e logística adequadas para ser entregue na bolsa exatamente quando o contrato próximo precisa dele.

No dia 21 de agosto os estoques certificados de Arábica mostravam apenas 227.992 sacas certificadas. Começou a aparecer algum café novo, mas ainda é um volume muito pequeno diante do tamanho do aperto.

Fluxo da safra atrasado, problemas de qualidade após as chuvas, logística e cafés da América Central caros ajudam a explicar por que podemos ter café disponível no Brasil e escassez de café imediatamente entregável na bolsa.

Esse atraso também aparece no fluxo de exportação, apesar de a colheita brasileira de Arábica já estar próxima de 90%, a Sucafina destacou em seu relatório que os embarques continuam atendendo principalmente as necessidades mais próximas dos torradores. Agosto começou abaixo do ritmo que normalmente esperamos para essa época do ano e existe um intervalo importante entre colher o café e ele estar beneficiado, preparado, embarcado, desembarcado e disponível nos países consumidores. A safra é grande, mas ainda está no país.

Nas últimas semanas acompanhei essa disputa entre comprados e vendidos no U6 (setembro). No texto “Comprados x Vendidos”, de 2 de agosto, escrevi que se tivesse que escolher um lado daquela disputa escolheria os vendidos.

Minha percepção era que os comprados já haviam sido muito bem remunerados, encontravam um excelente Backwardation para realizar a rolagem e que o fluxo da grande safra brasileira poderia favorecer quem estava vendido e errei nessa leitura, quem levou vantagem nessa corrida de liquidação foram os comprados.

Enquanto praticamente todo o OI do U6 desaparecia, o spread não fechou como eu esperava, caso os comprados fossem o lado mais pressionado para sair. Aconteceu justamente o contrário e o U/Z chegou perto do recorde de 41 cents de março de 1997. Os dois lados evidentemente liquidaram e rolaram posições, mas o comportamento do preço mostra que a necessidade dos vendidos de recomprar setembro foi muito maior que a pressão dos comprados vendendo U6.

É o Backwardation (mercado invertido) mais longo da história no Arábica, já são 1.040 dias.

As Opções também estavam no meio da conta, na semana passada mostrei que no vencimento das Opções do setembro aproximadamente 15.313 Calls terminaram ITM contra apenas 3.970 Puts. Minha expectativa era de que muitos compradores dessas Calls, ao receberem posições Long em U6, não quisessem entrar no período de entrega e gerassem fluxo vendedor liquidando ou rolando essas posições. Esse fluxo provavelmente aconteceu, basta olhar a queda brusca do Open Interest, mas não foi suficiente para fechar o spread.

O COT mostra, em 18 de agosto os Fundos não comerciais estavam líquidos comprados em 15.044 contratos, aumento de aproximadamente 3.400 lotes na semana. No relatório, que combina futuros e Opções, esses participantes mantinham 73.087 contratos em Spreading, equivalentes a 36,1% de todo o Open Interest combinado, mesmo depois de reduzirem impressionantes 23.763 contratos dessa categoria em apenas uma semana, eles continuam operando fortemente a curva de preços.

Enquanto uma enorme quantidade de posições e spreads era desmontada, os especuladores aumentavam sua exposição direcional comprada.

Vamos comparar tudo isso com o físico:

Dados da OIC mostram que entre outubro e junho foram exportadas 106,2 milhões de sacas no mundo, aproximadamente 5,3 milhões de sacas ou 5% acima da média dos últimos cinco anos.

O Brasil também voltou a acelerar suas exportações em junho e julho. Conversando com importadores estão dizendo que os torradores não querem alongar suas compras, enquanto aqui no Brasil o fluxo de negócios existe e este ciclo 26/27 é o que mais vendemos café no FOB aqui na MCT.

Reter oferta reduz a disponibilidade, mas não cria demanda

Se existe uma escassez generalizada de café, por que os diferenciais brasileiros continuam caindo? Como o mundo continua exportando acima da média?

O Robusta mostra essa comparação ainda mais interessante nesta semana porque fez exatamente o caminho contrário ao Arábica. No dia 14 sexta-feira da semana anterior o setembro negociava USD 27/t acima de novembro, ainda em Backwardation. Na segunda-feira o spread estava em +26, na terça +16 e na quarta-feira virou para -10 USD/t. Encerrou sexta-feira em -20 USD/t, portanto em Contango.

Não foi simplesmente uma queda leve do mercado: setembro passou de USD 3.621/t para USD 3.598/t, enquanto novembro saiu de USD 3.594/t para USD 3.618/t.

Na verdade houve uma reprecificação da curva, os estoques certificados do Robusta também ajudaram e chegaram na sexta-feira a 788.667 sacas entregáveis, aumento no dia de 21.500 sacas.

Enquanto o Arábica entrou no FND pagando um enorme prêmio pelo café imediato, o Robusta deixou de remunerar o nearby e passou a remunerar o carregamento para novembro.

Estamos naturalmente em período de rolagem do setembro e existe componente técnico nesse movimento, mas uma mudança de +27 para -20 USD/t em poucos dias é grande demais para ser ignorada no Robusta.

Esse contraste reforça a ideia de que não existe simplesmente uma “falta de café” explicando todo o complexo.

Se fosse apenas uma escassez generalizada, seria difícil conciliar Arábica com Backwardation extremo, Robusta entrando em Contango, diferenciais brasileiros pressionados para baixo e exportações mundiais acima da média.

Seria a receita do caos atual.

O Brasil está colocando no mercado uma safra muito grande e, mesmo com toda essa oferta entrando, o produtor brasileiro continua recebendo preços historicamente muito elevados surpreendendo até os mais otimistas. O Arábica CEPEA encerrou a semana a R$ 1.803,76 por saca, enquanto a bolsa continua acima de 300 c/lb e o dólar, mesmo recuando de aproximadamente R$ 5,22 para R$ 5,14 nesta semana, ainda contribui para preços nominais elevados em Reais.

Temos grande oferta entrando, diferenciais pressionados e mesmo assim preços muito bons para o produtor.

Ao mesmo tempo temos estoques certificados extremamente baixos no Arábica, pouco café imediatamente entregável, compradores trabalhando com coberturas mais curtas, muito mais prudentes que no ciclo anterior, fundos aumentando posições compradas, enorme quantidade de dinheiro operando os spreads, Robusta em Contango e o físico brasileiro mostrando disponibilidade.

Não falta café em todos os lugares e também não sobra café em todos os lugares, o desequilíbrio está na combinação dessas informações.

E U6 setembro ainda não terminou. O FND começou na sexta-feira e existe praticamente mais um mês para entrega. Com um prêmio em 36,1 c/lb sobre dezembro, o incentivo financeiro para disponibilizar café contra a bolsa é enorme.

Essa parte da minha tese do começo de agosto continua válida, o mesmo Backwardation que demonstra escassez também é o mecanismo vai tentar resolvê-lo.

O café não apareceu rápido o suficiente para ajudar os vendidos nessa primeira disputa, mas com uma remuneração dessa magnitude +36 c/lb ainda existe muito dinheiro tentando encontrá-lo, mês de setembro poderá ser um divisor de águas.

Uma definição do mercado atual é que não existe uma única informação capaz de explicar o preço. O físico diz uma coisa, diferenciais outra, os spreads dizem outra, os estoques mostram outra, o Arábica conta uma história enquanto o Robusta conta outra, as Opções acrescentam mais informação e o posicionamento dos participantes deixa o quebra-cabeça mais complexo.

Produtores, entendam como as Opções podem ser utilizadas na proteção do preço do seu café e conversem com suas cooperativas sobre essas ferramentas.

Informação nunca esteve tão disponível, interpretá-la continua sendo a parte difícil.

Boa semana,

Gustavo Matias

MCT | Matias Coffee Trading

Instagram: @matiascoffeetrading

*Não é recomendação de compra e/ou venda

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Publicado em 23 de agosto, 2026