Eleições, o mercado vota também
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Comentário Semanal 25 de outubro, 2026· 5 min de leitura

Eleições, o mercado vota também

· 5 min
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Matias Coffee Trading · Inteligência de mercado

Eleições, o mercado vota também.

Gustavo Matias

A Bolsa de NY trabalhou na média (ATR) acima de 1.100 pontos por dia nessa semana, variação que deixa todo mundo observando como o mercado pode mexer R$ 30,00 ou até mais, em apenas poucos minutos de Dólar e Bolsa aberta.

Com máxima de 318,20 e mínima de 302,25 c/lb, o contrato de Dezembro/26 fechou a 307,45 c/lb.

A grande maioria dos compradores entretanto estão utilizando tela de Março/27 que fechou a semana a 293,40, isso é menos 14,05 c/lb, que em Reais representa por volta de R$ 90,00 a menos na saca de café.

Por que é assim que funciona? Geralmente o comprador utiliza a tela em que ele tem vendas a fixar, e os contratos de Dezembro em sua grande maioria já acabaram, não teriam mais fixações para fazer contra Dezembro.

Em Reais o Arábica está trabalhando por volta de R$ 1.600,00 por saca, grande volume de cafés mais fracos sendo negociados e o produtor retendo o café fino.

Também no Arábica, os Fundos não comerciais compraram 6.440 contratos, seria o risco da eleição neste domingo?

Além disso aumentaram suas posições em Spreading em 7.562 contratos, todo mundo de olho no que pode acontecer agora no Spread Z6/H7.

O Robusta em Outubro acumula queda na bolsa -6,3%, somente essa semana caiu 5,45%, Contrato de Novembro fechou a 3.228 USD/Ton na sexta-feira, o físico está cotado em Reais por volta de R$ 890,00.

No Robusta os Fundos não comerciais continuam vendendo, venderam 2.488 contratos. O estoque super alto no Brasil, os estoques certificados aumentando, e início da colheita no Vietnã com pico da colheita em novembro chegando, tudo isso traz certo conforto de abastecimento do Robusta para o mercado.

O dólar acumulou queda de 1,58% na semana fechando a R$ 4,99.

Justamente o comportamento do Real que merece atenção especial neste domingo:

Hoje milhões de brasileiros vão às urnas decidir quem governará o país pelos próximos quatro anos.

Enquanto hoje os eleitores escolhem seu presidente o mercado financeiro já vem fazendo suas próprias escolhas há semanas. Comprando, vendendo, reduzindo riscos e antecipando cenários.

Sabia que o mercado também vota? Seus votos são representados por movimentações de capital.

O resultado da eleição não altera imediatamente a produção brasileira de café, não aumenta os estoques mundiais e tampouco modifica o consumo dos países importadores. Só que ele pode alterar significativamente as expectativas econômicas, os juros, o câmbio e por consequência o preço recebido pelo produtor brasileiro.

A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro apresenta propostas diferentes para a condução econômica do país especialmente na política fiscal, que nada mais é do que a maneira como o governo arrecada impostos, administra suas despesas e controla suas dívidas.

Lula propõe manter o atual arcabouço fiscal, uma regra que limita o crescimento das despesas públicas, preservando investimentos governamentais e programas sociais, além de defender uma tributação maior sobre rendas mais elevadas.

Flávio Bolsonaro propõe reformular essa regra, reduzir despesas administrativas, diminuir impostos e buscar superávits fiscais para estabilizar e reduzir a dívida pública.

São caminhos distintos cujos resultados dependerão das propostas e da capacidade de executá-las. Daí o mercado financeiro procura avaliar a credibilidade dessas políticas, quando os investidores percebem maior risco de endividamento, inflação ou desequilíbrio nas contas públicas, podem exigir juros mais elevados para financiar o governo ou reduzir seus investimentos no país.

Isso influencia diretamente as condições monetárias da economia, enquanto o Banco Central utiliza principalmente os juros para controlar a inflação, e os efeitos chegam inclusive ao custo do crédito rural.

O PIB, Produto Interno Bruto, que representa tudo aquilo que o país produz em bens e serviços, o crescimento do PIB ajuda a dimensionar a capacidade da economia brasileira de gerar renda e arrecadação.

Detalhe que crescer não significa necessariamente equilibrar as contas, igual em qualquer empresa o que importa também quanto o governo gasta e como sua dívida evolui.

A balança comercial que registra a diferença entre exportações e importações, quando o Brasil exporta mais do que importa registra um superávit comercial.

Essas vendas geram receitas em dólar como acontece com o café e contribuem para a entrada de dólares no país.

Para dimensionar a importância do nosso setor cafeeiro, em 2025 o café gerou aproximadamente US$ 15,6 bilhões em exportações, representando 4,5% de tudo o que o Brasil exportou. Em 2026 até setembro foram US$ 10,1 bilhões, equivalentes a 3,6% das exportações nacionais.

O café continua sendo uma importante fonte de divisas para o país, embora savemos que o câmbio depende de movimentações financeiras muito maiores.

Essa é uma distinção fundamental ok, o dólar não sobe ou cai simplesmente porque o Brasil vendeu mais ou menos café, dólar responde ao conjunto das movimentações de capital e às expectativas sobre o futuro econômico do país.

Um detalhe que já falei diversas vezes nos meus textos, o mercado é movido a percepção, ele não espera o resultado das urnas para reagir. Ele vai antecipar probabilidades, ajustar preços e construir posições.

Então na segunda-feira dependerá tanto do resultado quanto da diferença entre aquilo que os investidores esperavam e o que efetivamente aconteceu.

Até mesmo resultados favoráveis por determinados participantes pode provocar realização de lucros caso já esteja amplamente incorporado aos preços, vira um efeito cascata para ambos os lados.

Essa incerteza ficou evidente no mercado de opções de dólar, a volatilidade implícita que representa a intensidade das oscilações esperadas e incorporadas aos preços desses contratos atingiu níveis super elevados antes da eleição.

Em outras palavras os investidores estão pagando mais caro para se proteger contra movimentos bruscos da moeda.

Isso não indica necessariamente se o dólar vai subir ou cair, só demonstra o tamanho da incerteza.

Na minha opinião a próxima semana deve apresentar movimentos expressivos no dólar com mudanças rápidas de direção e impacto direto no valor da saca em Reais, e talvez algum impacto nas commodities como o café.

Sem contar também o rebalanceamento dos portfólios dos grandes fundos de investimento. Imagine um fundo internacional que distribui bilhões de dólares entre moedas, títulos públicos, ações e commodities e quando o risco de determinado país aumenta ou sua moeda passa a oscilar mais intensamente, esse fundo pode precisar reduzir sua exposição, transferir recursos para outros mercados ou aumentar posições em diferentes ativos para manter os limites de risco do Fundo.

Daí veremos que essas movimentações não significam necessariamente uma mudança na oferta ou na demanda de determinada commodity.

O café pode receber compras ou vendas financeiras simplesmente porque um fundo decidiu reorganizar sua carteira, só isso.

Talvez essa semana iremos observar movimentos expressivos na bolsa sem qualquer alteração proporcional nos fundamentos físicos do produto, é só uma movimentação financeira sem fundamentos reais do café físico.

Para quem comercializa café exige atenção redobrada.

Traders, importadores e exportadores ficam mais cautelosos em assumir novas posições, painda mais quando existe grande volatilidade simultânea na bolsa e no câmbio.

O risco grande que existe na necessidade de financiar ajustes de posições protegidas enquanto a operação física ainda não foi liquidada. Uma operação de hedge pode estar economicamente protegida e ela exige volumes expressivos de caixa para suportar oscilações temporárias por conta de política.

O mercado físico nem sempre acompanha imediatamente a velocidade dos movimentos financeiros. Diferenciais, prazos de embarque, disponibilidade e interesse dos compradores continuam determinando as condições efetivas de negociação.

Para dimensionar a importância do câmbio considerando Nova York a 307,45 c/lb, uma variação de apenas dez centavos no dólar representa aproximadamente R$ 40,67 por saca na conversão teórica do contrato futuro, antes dos diferenciais e custos comerciais.

Daí naturalmente o preço físico não acompanha essa conta de maneira automática, só estou demonstrando como uma variável financeira pode influenciar a remuneração do produtor diretamente por conta de fatores alheios ao fundamento físico.

Reforçando, movimentos financeiros e fundamentos físicos nem sempre caminham juntos especialmente em períodos de incerteza.

Neste domingo conheceremos o resultado das urnas, em algumas horas após eu terminar esse texto. A partir de amanhã o mercado começará a ajustar suas expectativas para os próximos anos.

A eleição terá um vencedor e a avaliação econômica não terminará com a contagem dos votos, vai continuar dependendo das decisões, da execução das políticas e da confiança dos investidores.

E enquanto milhões de brasileiros exercem sua soberania por meio do voto, reafirmando a força da nossa democracia, o mercado continuará votando todos os dias, através dos juros, das moedas e dos preços.

Boa semana,

Gustavo Matias

Instagram: @matiascoffeetrading

*Este texto expressa análises e opiniões pessoais e não representa posicionamento institucional da Cooperativa Minasul

*Não é recomendação de compra e/ou venda

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Publicado em 25 de outubro, 2026

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