O preço da sofisticação
Voltar aos relatórios
Comentário Semanal 11 de outubro, 2026· 5 min de leitura

O preço da sofisticação

· 5 min
18px
Matias Coffee Trading · Inteligência de mercado

Essa semana foi volátil na bolsa de NY, o Arábica, movimentou uma média de 1.100 pontos por dia, durante a semana a mínima foi de 284,25 e máxima de 308,35 c/lb, amplitude de 2.410 pontos. Terminou a sexta-feira em baixa discreta de -0,62% em relação à semana anterior, a 286,95 c/lb, praticamente no mesmo nível da semana anterior.

O contrato de dezembro entra no período de avisos de entrega em 19 de novembro, provocando a migração de posições para março, o preço trabalha próximo de 8 cents menos no próximo vencimento.

A bica corrida com 15% de catação e 25% de peneira, bebida dura, fecha a sexta-feira por volta de R$ 1.540,00 a saca de 60kg.

No Robusta, o contrato de Novembro fechou a 3.470 USD/Ton, apenas +1 USD de diferença da semana anterior. Na semana teve máxima de 3.669 e mínima de 3.406 USD/Ton. No físico o preço fechou em por volta de R$ 920,00/saca para o tipo 7.

O destaque negativo para o preço do café foi a queda expressiva do dólar, após o primeiro turno das eleições, o mercado reagiu forte e abriu logo na segunda-feira com queda de quase 22 centavos, nesse momento está em R$ 4,98, com expressiva queda em relação a semana anterior.

O último COT no Arábica mostra posicionamento dos fundos não comerciais com 25.008 contratos comprados e 26.168 vendidos, posição líquida negativa de 1.160 contratos. Aumentaram um pouco a posição comprada.

Detalhe que aumentaram expressivamente a posição em spreading em +6.457 contratos, totalizando 73.920 contratos em aberto.

O relatório do Robusta mostrou os fundos managed money aumentando a posição comprada em 4.151 contratos e diminuindo a posição vendida em 3.578 contratos. Aumentando a posição líquida comprada em 7.729 contratos.

O mercado de café mudou muito nos últimos anos como todos têm visto.

Não apenas pelos preços historicamente elevados, pela volatilidade ou pelos desafios de oferta e demanda. É que existe uma transformação acontecendo na forma como produtores, exportadores, bancos, fundos e indústrias negociam e administram seus riscos.

O café está se tornando um negócio cada vez mais sofisticado, financeiramente exigente e complexo.

Começa aqui na própria origem. O produtor de café brasileiro está muito mais preparado e interessado nas ferramentas financeiras disponíveis.

Hoje não é incomum receber ligações de produtores perguntando sobre operações com opções, estratégias de proteção do dólar, NDF, hedge e outras estruturas que até poucos tempo atrás eram assuntos praticamente restritos às mesas de operações das grandes empresas.

Vejo isso extremamente positivo, o produtor começa a compreender que comercializar café não significa simplesmente acompanhar a cotação na Bolsa e decidir quando vender. Ele observa que existe o câmbio, o diferencial, o custo financeiro, a estrutura de proteção, os vencimentos e a administração do risco. Estou há 16 anos na área do café e venho percebendo.

Evidentemente essa evolução não acontece de maneira uniforme mas há uma mudança perceptível no nível das discussões.

O mercado financeiro também está passando por transformações importantes, algumas delas muito menos visíveis para quem acompanha apenas os relatórios tradicionais da Bolsa.

Durante as discussões que tivemos recentemente na SCTA, na Suíça, um dos assuntos mais interessantes pra mim foi justamente o crescimento e a sofisticação das operações OTC, realizadas diretamente entre contrapartes, fora do ambiente tradicional de negociação em Bolsa.

Um grande fundo pode assumir exposição direcional ao preço do café através de um Swap negociado com um banco, e esse banco pode possuir diversos outros clientes com exposições opostas compensando internamente eesses riscos sem necessariamente precisar lançar contratos futuros na ICE para cada operação realizada.

Pra mim isso levanta uma questão importante: qual é o tamanho real da exposição financeira ao café que não conseguimos enxergar apenas observando o OI Open Interest e os relatórios COT?

Não sabemos. E essa é precisamente a questão: O COT continua sendo uma ferramenta extremamente importante, mas não representa necessariamente toda a exposição econômica existente no mercado.

Os números pode não aparecerem diretamente nesses relatórios, embora operações de hedge realizadas pelas contrapartes possam refletir parte dessa exposição na Bolsa. Não significa que exista necessariamente um volume gigantesco escondido, mas que nossa capacidade de medir o mercado apenas pelos instrumentos tradicionais tem limitações. Pense nisso.

E os números apresentados recentemente pela Hedgepoint deixam esse tema ainda mais interessante.

Segundo eles, o OI Open Interest total do Arábica na ICE está aproximadamente 30% abaixo da sua média histórica, próximo dos menores níveis da última década. A participação de produtores e negociantes também diminuiu consideravelmente, representando aproximadamente 55% do OI, contra uma média histórica próxima de 70%.

Não estou dizendo necessariamente que o mercado físico diminuiu ou que toda essa atividade migrou para o OTC. Só observando uma mudança importante na composição e na estrutura do mercado futuro.

Com menor participação comercial e menos contratos em aberto, determinadas ordens podem encontrar menor capacidade de absorção, ampliando os movimentos de preço.

Outra coisa, o OI isoladamente não determina a liquidez, mas sua redução combinada com menor profundidade de mercado, pode aumentar a sensibilidade das cotações aos fluxos financeiros, trazendo mais volatilidade.

A própria Hedgepoint mostrou que nos últimos anos a volatilidade aumentou significativamente enquanto a participação relativa dos agentes comerciais diminuiu. Os fundos continuam exercendo influência importante sobre os movimentos, mesmo sem necessariamente aumentar sua participação proporcional em relação às médias históricas.

Daí temos um cenário interessante: a exposição financeira pode assumir formatos cada vez mais sofisticados fora da Bolsa, enquanto o mercado futuro tradicional apresenta sinais de redução na participação de alguns dos seus principais agentes. Interessante não é?

Só que essa sofisticação tem um preço, e não estou falando do preço do café.

O café se tornou uma commodity extremamente cara para financiar.

Comprar, armazenar, transportar, exportar e proteger posições exige hoje uma quantidade de capital de giro muito superior em comparação há alguns anos.

Os custos financeiros não dependem apenas das taxas de juros, mas também do valor financiado.

A Hedgepoint apresentou um gráfico bastante interessante mostrando que, mesmo com taxas brasileiras inferiores em determinados períodos históricos, o custo financeiro por saca permanece próximo dos maiores níveis registrados nas últimas décadas.

Acrescente a isso as chamadas de margem nas Bolsas, o financiamento de estoques, a exposição cambial, os custos logísticos e as oscilações dos diferenciais. Uma operação comercial que parecia relativamente simples pode exigir hoje uma estrutura financeira bastante robusta.

Daí outra questã: qual é o espaço reservado para os pequenos e médios participantes nesse mercado?

Não basta encontrar um comprador, conhecer a qualidade do café ou identificar uma oportunidade comercial. É necessário ter crédito, e muito crédito, liquidez, capacidade de financiamento e instrumentos adequados para suportar oscilações muitas vezes violentas. O risco não está apenas em perder dinheiro numa operação, mas também em não conseguir financiá-la até conclui-la.

Eu passei por isso em 2023/24 na minha empresa à época, as exigências financeiras ficaram tão grandes que precisei desmontar operações por falta de liquidez, conheço bem essa dificuldade não apenas na teoria.

No mercado físico brasileiro também vejo algumas contradições que ajudam a entender esse ambiente.

Tenho acompanhado os diferenciais da bica corrida, sempre utilizando os dados do CEPEA, câmbio e Bolsa de Nova York.

Na primeira semana de outubro esse indicador está por volta de -58 c/lb, contra uma média de -41 c/lb em 2026 e uma média histórica de trinta anos de -27 c/lb.

Importante esclarecer que esse indicador não representa diretamente os diferenciais negociados, mas ajuda a compreender como indicador o comportamento relativo do preço físico brasileiro diante da Bolsa.

O café brasileiro está sendo negociado com um desconto expressivo em relação às suas referências históricas.

Mas isso não significa que estamos observando uma agressividade proporcional na comercialização ou na formação de novos negócios, e pra mim existe uma explicação importante para essa cautela.

O primeiro semestre de 2026 deixou experiências bastante difíceis. Empresas que venderam cafés com diferenciais negativos, acreditando que conseguiriam originar o produto em condições semelhantes, acabaram encontrando um mercado físico muito mais caro, sendo obrigadas a comprar café com diferenciais bem caros para cumprir compromissos e essa diferença representou prejuízos expressivos.

É natural que experiências como essas mudem o comportamento comercial. A disposição para vender descoberto, assumir riscos de diferencial e antecipar compromissos diminui quando a memória das perdas ainda está tão recente.

Hoje mesmo com diferenciais bem negativos, existe uma preocupação muito maior com a capacidade de execução e com o risco de reposição. Não é necessariamente falta de compradores ou vendedores, o mercado só está bem mais seletivo.

Outro ponto que gostaria de comentar é a logística brasileira.

Houve melhorias pontuais no escoamento, mas ainda estamos longe de uma operação com a fluidez desejada. O café continua saindo, os embarques acontecem, mas o ritmo permanece aquém do potencial brasileiro.

Opinião pessoal que considerando a dimensão da produção brasileira e a necessidade de abastecimento global, o Brasil deveria estar exportando volumes acima de cinco milhões de sacas mensais nesse período, caso os gargalos logísticos fossem menores e houvesse condições comerciais para isso.

A Hedgepoint chamou atenção para essa diferença entre disponibilidade e movimentação. Segundo ela o volume de Arábica disponível no Brasil em setembro chegou a 26,5 milhões de sacas, muito acima dos 16,1 milhões estimados para o mesmo período da safra anterior.

Lembrando que se trata de uma estimativa de disponibilidade baseada em estoques de passagem, comercialização e exportações, não necessariamente de café fisicamente livre para embarque imediato.

O contraste é bem relevante. Existe café na origem, mas sua transferência aos mercados consumidores não acontece na mesma velocidade.

Uma parte importante dessa equação envolve justamente decisões comerciais, capacidade financeira, estrutura logística e administração do risco.

Sobre as chuvas, setembro teve precipitações acima da média em diversas áreas, favorecendo o desenvolvimento vegetativo e estimulando floradas para a safra 2027/28.

As perspectivas iniciais são favoráveis em algumas regiões, mas ainda existe um longo caminho entre a florada e a colheita. O pegamento, a regularidade das próximas chuvas, as temperaturas e os possíveis efeitos do El Niño continuarão no radar.

Lembrando que esse cenário também influencia a decisão do produtor sobre quanto vender da safra atual e quanto comprometer das próximas colheitas.

No lado do consumidor ele está se adaptando. Os dados da ABIC mostra que o aumento expressivo no preço do café não provocou uma redução proporcional no consumo. O consumidor ajusta marcas, blends, formatos e hábitos de compra antes de simplesmente abandonar o café.

Olha que interessante observar como essa transformação acontece em praticamente todos os elos:

O produtor aprende novas ferramentas financeiras, o exportador se torna mais cauteloso, os bancos ampliam possibilidades de estruturação, os fundos encontram outras formas de exposição e a indústria adapta seus produtos às condições do mercado.

O mercado está exigindo mais conhecimento, mais tecnologia, mais governança, mais crédito e uma compreensão cada vez maior dos riscos envolvidos.

Aqueles que não conseguem acompanhar essas exigências podem encontrar dificuldades crescentes para competir.

A sofisticação é positiva não tenho dúvidas, mas o mercado também ficou muito mais caro e mais difícil de operar. Pelo que estou acompanhando quem não tiver capital e conhecimento vai encontrar cada vez menos espaço.

Boa semana,

Gustavo Matias

Instagram: @matiascoffeetrading

*Este texto expressa análises e opiniões pessoais e não representa posicionamento institucional da Cooperativa Minasul

*Não é recomendação de compra e/ou venda

Em breve lançarei agenda de cursos para outubro:

- 24/out | Negócios de Café para iniciantes

- 19/out | Como funciona a Bolsa e o preço do Café

- 20/out | Travas financeiras para o produtor de Café

- 21, 22 e 23/out | Precificação e Exportação de Café

- 26, 27 e 28/out | Curso avançado de Hedges e Operações Estruturadas para Café

Inscrições: 16 99291-2005

Publicado em 11 de outubro, 2026

Continue lendo

Outros relatórios de Comentário Semanal